segunda-feira, 30 de março de 2015

O colapso dos partidos socialistas europeus


Resultado eleitoral em França é "rejeição maciça" para Hollande
O Presidente da conservadora União por um Movimento Popular (UMP), Nicolas Sarkozy, considerou hoje que a vitória do centro-direita nas eleições locais francesas é consequência da "maciça rejeição das políticas do Presidente [François] Hollande".
Notícias ao Minuto

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O colapso dos partidos socialistas europeus

Um a um, os partidos socialistas vão sucumbindo na enxurrada da crise europeia. É a prova evidente que o establishment está a mudar. E é muito possível que mudanças de outra natureza venham a ocorrer com o previsível agravamento da crise europeia. O bipartidarismo de circunstância, que tem regido os países da Europa, está a desagregar-se. Os eleitores começaram a perceber que as políticas de alternância no poder entre socialistas e sociais-democratas e os partidos conservadores eram uma farsa do sistema. A diferença entre os dois blocos políticos era igual à da imagem ao espelho, que levantava o braço esquerdo, quando alguém, do outro lado, levantava o braço direito.
A principal consequência desta mudança estrutural vai refletir-se na fratura e no desequilíbrio do sistema político-partidário, pois deixará de existir a almofada de segurança que permitia manter, sem contestação, as políticas do sistema capitalista, que muito se orgulhava da sua democracia de fachada. 
Agora, a pergunta que se coloca consiste em saber para onde irão os votos do descontentamento. Para a direita e extrema-direita ou para os atuais partidos de esquerda, do antissistema? Ou será que a Europa vai entrar em convulsão, com revoltas populares nos países do sul?

Agradecimento


Agradeço ao António Vicente a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua

sexta-feira, 27 de março de 2015

O desafio de ler Herberto Helder


É preciso preparação para entrar na poesia de Herberto Helder. Caso contrário, é como nos atirarmos à piscina sem saber nadar, diz-nos Luís de Almeida Gomes. Para o alfarrabista, Herberto Helder é mais do que um poeta incontornável: era um amigo e um frequentador habitual da sua livraria. A Artes & Letras -  que há alguns meses deixou o Largo da Misericórdia para se instalar na Av. Elias Garcia – está, aliás, na origem da amizade que os uniu durante décadas. Apesar de Luís reconhecer o lado “discreto e recatado” de Herberto, revela que quando se encontravam, quase sempre na livraria, falavam de tudo. Ainda hoje, de cada vez que lê os poemas de Herberto Helder volta a descobrir coisas novas.

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Para ler Herberto Helder é necessário alguma preparação prévia para compreender a profundidade do seu universo poético. Não basta o traquejo da interpretação da escrita linear, onde as palavras têm um único significado, aquele que elas adquiriram com a evolução natural da língua. A poesia de Herberto Helder exige-nos que consigamos abarcar a terceira dimensão das palavras, quando inseridas em contextos metafóricos, que nos aproximam do abismo dos sentidos. Por isso, tinha de ser uma poesia complexa e densa, uma poesia que, ao lê-la em silêncio, nos levasse a ouvir o som das palavras, sem sequer as pronunciar. É todo um mundo onírico que nos deslumbra e nos eleva para uma realidade superior, até ali inatingível e que não fazia parte do nosso imaginário.
Recuso estabelecer hierarquias de valor literário entre poetas e também entre escritores. O século vinte foi o século de ouro da literatura portuguesa, quer na prosa quer na poesia. Para trás, ficaram as brilhantes prestações de Eça, Camilo, Garrett, Vieira e Camões. Juntando a este friso Aquilino Ribeiro, Pessoa, Saramago e Herberto Helder, julgo que nos encontramos perante a galeria dos Príncipes da Língua Portuguesa, à qual falta acrescentar alguns escritores brasileiros.
Alexandre de Castro

quinta-feira, 26 de março de 2015

Notas do meu rodapé: A quem interessa a prisão de Sócrates?


Eu não ponho as mãos no fogo por José Sócrates. Detetei-lhe algumas contradições nas suas explicações públicas sobre o caso do Freeport e o da sua licenciatura. Acredito que não tenha sido honesto, aproveitando-se do seu elevado cargo para interesses pessoais, e nunca compreendi como lhe era possível sustentar a sua vida luxuosa em Paris. Apesar disto, não me atrevo, nem posso, a declará-lo inocente ou culpado. Fico a aguardar o seu julgamento, que quero justo e isento.
No entanto, também acredito que a sua prisão, que parece estar ferida de várias ilegalidades, está a servir outros ocultos interesses, ligados à luta das sociedades secretas, pela conquista do poder político, mais concretamente a luta titânica e silenciosa entre a Maçonaria e a Opus Dei. Com Sócrates preso, e com o programado e continuado processo da "fuga" intencional de informações do processo, algumas delas a roçar o delírio, o PS poderá sair muito enfraquecido das próximas eleições, diminuindo assim a influência da Maçonaria e aumentando a da Opus Dei. O Papa estará por cá, em 2017, para lançar a sua bênção aos novos governantes.

Henrique Neto "é irrelevante para o PS"


Elementos de PS consideram que Henrique Neto “não conta do ponto de vista político dos cidadãos”.
Henrique Neto é até agora o único candidato às eleições presidenciais de 2016 e, apesar do avanço do socialista ter sido recebido com indiferença pelo PS, a verdade é que a candidatura levantou algum desconforto em elementos do partido por ainda não haver uma figura “ganhadora”.
Notícias ao Minuto

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Os sinais de degenerescência e apagamento do PS são evidentes. À sua incapacidade em assumir um consistente programa político, que o diferencie da direita, soma-se também a ausência de um candidato presidencial de peso, que seja o catalisador do descontentamento popular. 
Num quadro destes, não admira que a direita não veja refletido nas sondagens o seu desgaste político. É que aquela parte do eleitorado do centro, que está descontente com a atual situação, formula esta simples premissa: Se é para fazer uma política de direita, então, por uma questão de coerência, é melhor escolher um partido de direita. Os ortodoxos do Partido Socialista não compreendem isto.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Homenagem a Herberto Helder | Poema de maria azenha


MESTRE SEM MORTE
(a Herberto Helder)

Entre as mãos uma acácia
Moedas de silêncio
O sangue de um compasso
E a terra alva
A altura da sombra
Ocupa o negro da página
Desaba
Um verso secreto
Do palácio
O poema
Foi devorado
Pelos olhos de um falcão

maria azenha
(2015-03-24)

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Uma homenagem merecida de uma grande “poeta” para um grande poeta.
Herberto Helder deixou-nos, mas ficou, para o nosso contínuo deslumbramento, a sua poesia, uma poesia talhada a escopro no corpo denso das palavras e trabalhada por uma talentosa engenharia metafórica. Herberto Helder fez na poesia o que Saramago fez na prosa: engravidou as palavras, que nele tinham uma grande sonoridade e densidade poéticas.
Alexandre de Castro

segunda-feira, 23 de março de 2015

Arqueólogos desenterraram três antigos mosaicos gregos numa escavação em Zeugma, na Turquia


Mosaico representando as nove musas em retratos

Mosaico representando Océsno Tetis

Mosaico representando um jovem, sem nenhuma informação
Ver texto aqui.

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A rota da seda

Aquela milenar rota da seda não deixa de nos surpreender com as sucessivas revelações dos seus tesouros arqueológicos, que são imensos, e com muitos ainda por desvendar. Não admira que assim seja. Foi por aquela rota que, até ao século XVI, quando os portugueses "abriram" o caminho marítimo para o Oriente, que a economia euro-asiática circulava. A rota da seda era o veio da transação de mercadorias entre um Oriente opulento e um Ocidente em franco e rápido desenvolvimento civilizacional, e que teve a sua máxima expressão com o império de Alexandre Magno e o império de Roma. Foram as repúblicas do norte de Itália, com a Sereníssima República de Veneza à cabeça, já na ponta final da Idade Média europeia (sec. XV), as últimas beneficiárias do comércio dessa rota. Esse monopólio (o comércio com o Oriente) transferiu-se para Lisboa, que por sua vez o transferiu para o norte da Europa. Por isso, a liderança do mundo, nesse tempo, passou para Portugal, de uma forma efémera, para a Holanda e para a Inglaterra, de uma forma mais persistente, e para a Espanha, que expandiu o seu domínio para as Américas e que "ergueu", no ponto de vista territorial, o maior império de todos os tempos. Dizia-se que no império de Carlos V - que ia da Europa à Ásia (Filipinas) e passava pelas Américas - "o Sol nunca se punha".
Como podemos ver, nesta visão alargada do tempo histórico, as coisas não são imutáveis. Tal como as pessoas, os impérios nascem, crescem, mas acabam por morrer, facto que não é percetível no curto tempo de uma, duas ou três gerações. E no tempo atual, já há sinais evidentes de uma nova mudança do sentido da História, com o centro da liderança a passar para a Ásia, onde a História, na verdade, começou. A Europa entrou em declínio. Apenas resta saber se esse declínio irá ser mais rápido ou mais lento. Mas nenhum de nós o irá testemunhar.
AC

quarta-feira, 18 de março de 2015

Cavaco arquiva petição para demitir Passos


O Presidente da República, Cavaco Silva, decidiu determinar o arquivamento da petição que pede a demissão do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, informou hoje fonte oficial de Belém.
No passado domingo, a petição pela demissão do Passos Coelho, com mais de 19.100 assinaturas, foi entregue nos serviços da Presidência da República.

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Um documento que fica oficialmente registado nos arquivos, para o julgamento futuro da História, em que se prova a cumplicidade política de um "inútil" Presidente da República, que não tem capacidade de se escandalizar (porque o fantasma do imposto da siza o atormenta) com o comportamento de um primeiro-ministro que não cumpriu, em devido tempo, as suas obrigações contributivas para com a Segurança Social. Os historiadores do futuro irão referir-se a este período como "O Tempo Sagrado dos Crápulas".

terça-feira, 17 de março de 2015

Crise afectou direitos fundamentais em Portugal


Relatório do Parlamento Europeu conclui que os efeitos foram especialmente negativos junto das crianças.
A crise teve um impacto acentuado nos direitos fundamentais em Portugal, tendo o direito ao trabalho sido provavelmente o mais afectado, conclui um estudo encomendado pela comissão de Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos do Parlamento Europeu, divulgado nesta terça-feira.

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Ninguém de boa fé e minimamente informado poderá reclamar para si uma atitude de admiração, de surpresa ou de espanto, quando se afirma que a crise afetou direitos fundamentais em Portugal. O objetivo oculto, agora apontado por este estudo, era mesmo esse: a rápida e progressiva desvalorização salarial e o desmantelamento do Estado Social. Todas as medidas de austeridade, assumidas pelo governo PSD/CDS, quer através do aumento de impostos, quer pela política de cortes da despesa do Estado, e, quer também, pela revisão das leis do trabalho, atingiram em cheio os trabalhadores (e os seus filhos) e os reformados e pensionistas, desmentindo-se assim aquela sedutora narrativa dos vendilhões do Templo, que diziam que "os sacrifícios eram para todos".

Estudo: E o político em que os portugueses mais confiam é...


Um estudo realizado pela Seleções do Reader's Digest chegou à conclusão de quais as figuras públicas os portugueses mais têm confiança.
Os portugueses elegeram Marcelo Rebelo de Sousa como o político em quem mais confiam. O estudo Marcas de Confiança realizado pela Seleções do Reader’s Digest mostra que 14% elegeram o comentador da TVI, substituindo Rui Rio, antigo presidente da Câmara Municipal do Portohttp://ad.doubleclick.net/ad/N9166.140075.SAPO/B8528259.115396767;sz=1x1;ord=dc8beacffa?
O estudo dá conta ainda de que a política é uma das áreas em que os portugueses menos confiam. No geral, 96% não confia nos políticos e 83% não confia no atual Governo de Passos Coelho, segundo o Dinheiro Vivo. 
Os Sindicatos (81%), o sistema judicial (73%), os bancos (72%) e a União Europeia (71%), são outras entidades em que os portugueses também não confiam.
Em relação aos que confiam, Cristiano Ronaldo foi o desportista escolhido, com 54%. Rui Veloso foi o músico eleito (19%), Ruy de Carvalho na área da representação, com 47% e o escritor foi José Rodrigues dos Santos (28%).

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Se tivéssemos de levar este estudo a sério, seríamos obrigados a concluir que vivíamos num país de "merda". Mas as coisas não são bem assim. Nestas coisas dos inquéritos, interessa muito a metodologia utilizada, a estrutura da amostra e a forma como as perguntas são colocadas aos inquiridos. Perante a surpresa da pergunta, feita sem qualquer aviso prévio e sem referências aos respetivos contextos, em que seja permitida uma ponderada reflexão, o inquirido é levado, até para não ser considerado um ignorante, a indicar a personalidade mais mediática que, naquele momento, conhece, em cada setor considerado. E foi o mediatismo, o que este estudo mostrou, ao apurar, por exemplo, que Marcelo Ribeiro de Sousa era o político em que os portugueses mais confiam. E não foi nada inocente a realização deste estudo. 
Já a desconfiança manifestada em relação a Passos Coelho (justificada), aos sindicatos (incompreensível e inconcebível), aos bancos, ao sistema judicial e à União Europeia (também justificadas) não se projeta, incompreensivelmente, naqueles inquéritos usados pelas empresas da especialidade, para as sondagens sobre as intenções de voto, o que revela uma grande contradição. Alguém está a manipular as perceções da opinião pública.
Pela minha parte, se eu tivesse sido inquirido, até responderia que o Cristiano Ronaldo deveria ser o próximo Presidente da República, já que estou farto de ser governado por personalidades que têm os neurónios no cérebro.

segunda-feira, 9 de março de 2015

A quadratura do círculo

António Costa a transportar o leite da Alemanha

Os dirigentes do PS não podem apenas culpar António Costa. Têm também de se culpar a si próprios, pois continuam a pensar e a agir como se fosse possível resolver a quadratura do círculo. Ou seja, continuam a pensar que será possível, no plano mediático, e para o eleitor consumir, manter o partido numa posição equidistante, em relação ao PSD, por um lado, e ao PCP e ao BE, por outro. Esse equilibrismo político já não é possível, pois o quadro social eleitoral alterou-se com a crise dos últimos quatro anos. 
O eleitorado tradicional do PS, principalmente o colocado mais à esquerda, e que se integra na classe média, uma classe social que foi severamente castigada com as medidas de austeridade, impostas pelo governo PSD/CDS, já não se contenta com os eloquentes discursos, feitos de lugares comuns, e que de substancial nada dizem, ou dizem pouco. Acusar o governo de ter empobrecido o país e, em contrapartida, não apresentar um projeto credível e objetivo para inverter a situação, não é suficientemente apelativo. Dizer que o PS vai fazer uma política diferente da do governo da coligação de direita, e omitir a questão do Tratado Orçamental e a magna questão da dívida pública, que é necessário e urgente renegociar e reestruturar, é entendido pela opinião pública como mais uma grande mentira. 
Já se percebeu que António Costa não pretende alterar a política atual, em relação às instâncias europeias. Ele é um europeísta convicto, tal como o são António Seguro e Passos Coelho. Percebeu-se que ele não tem nenhuma intenção de contrariar tudo aquilo que seja decidido em Bruxelas e em Berlim. Mas as pessoas também já perceberam, até pelo tratamento arrogante e ditatorial assumido pelos dirigentes europeus, em relação à Grécia, que os donos políticos desta Europa não estão minimamente interessados em alterar a sua política de austeridade e de empobrecimento. Parte do eleitorado está mais informado sobre as questões económicas e políticas da Europa, e, também, alarga-se o número de portugueses que já começam a perceber que estas políticas de austeridade são inimigas do desenvolvimento económico e que não levam a lado nenhum, pois a colossal dívida pública externa  será impossível de pagar. Os eleitores, que já percebem isto, não irão votar em António Costa. Os eleitores que anteriormente votaram no PSD e que agora estão descontentes, não vislumbrarão vantagens em votar no PS, recusando assim o ritual da alternância do voto, o chamado voto flutuante, ao centro. Os eleitores do PS, mais à esquerda, e que pretendem uma efetiva mudança política, que se afirme convictamente anti-austeritária, ou irão exilar-se na abstenção ou votarão em partidos da verdadeira esquerda. E é esta quadratura do círculo que os dirigentes do PS e António Costa não conseguem resolver, a não ser que ocorra uma revolução dentro deste partido, que conduza a uma maior radicalização em relação à Europa e a uma aproximação sincera e transparente ao PCP e ao BE, coisa em que eu não acredito.

domingo, 8 de março de 2015

Decapitações executadas por jihadistas do Estado Islâmico


Um verdadeiro horror! Um estado de demência e crueldade, que nos conduz ao absurdo, antes de nos agitar a repugnância e de nos levar à revolta. É o regresso à barbárie e a assumção da glorificação da Besta. Os vândalos, emergindo da escuridão das trevas, matam homens, como se matam os porcos, num espetáculo degradante, grotesco, sórdido e macabro, exibido intencionalmente, a fim de provocar o medo e espalhar o terror.
Não pode haver lugar neste mundo, para quem promove, apoia e executa estas monstruosidades.

terça-feira, 3 de março de 2015

Cada um de nós tem um Kafka dentro de si


Só, como Franz Kafka
Kafka é o nome de um enigma que o próprio levou a vida inteira a tentar decifrar, tendo encontrado apenas “um mundo tremendo” dentro da sua cabeça, que ele legou como herança ao século que fez do “kafkiano” um lugar-comum.
Proferiu a pergunta a que um exército de exegetas irá tentar responder: “‘Quem sou eu, afinal?’”. Esta pergunta teve respostas diferentes, nunca faltou Kafka para todos os gostos: o santo, o culpado, o funcionário renitente, o homem que tinha “um mundo tremendo na sua cabeça”.
António Guerreiro

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 Cada um de nós tem um Kafka dentro de si

Em Kafka, tal como em Fernando Pessoa, a obra literária, muito densa, profunda e intimista, confunde-se com o seu criador.
Aliás, Kafka e Pessoa percorreram caminhos comuns, nas suas vidas. Ambos viveram a fase adulta, nas duas primeiras décadas do século XX, um período marcado pela Primeira Guerra Mundial e pelo aparecimento do movimento modernista, na literatura e nas artes. Ambos eram indivíduos solitários e tímidos, com uma grande dificuldade de se relacionar com as mulheres. Ambos assumiram uma visão decadentista do Homem, do mundo e da sociedade. Ambos morreram precocemente. Ambos construíram um mundo de pesadelos. Ambos deixaram muitos escritos por publicar ou inacabados. Ambos, sem qualquer premeditação ou intencionalidade, criaram o mito à volta da sua vida e da sua obra literária. Ambos desencadearam, posteriormente à sua morte, grandes polémicas em relação ao seu posicionamento político. Ambos, como mais nenhuns outros escritores, despertaram tanto interesse aos críticos e aos investigadores literários. Ambos alcançaram o estatuto de génios da literatura. 
E, depois disto tudo, chega-se à conclusão de que o mundo Kafkiano e o mundo pessoano ainda têm muito para descobrir.
AC

segunda-feira, 2 de março de 2015

"Primeiro-ministro caloteiro" tem de explicar dívidas


Catarina Martins exigiu hoje explicações ao país por parte de um "primeiro-ministro caloteiro para com a Segurança Social" ainda antes do próximo debate quinzenal, agendado para 11 de março, na Assembleia da República.

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Em qualquer país civilizado, daquela Europa que os políticos portugueses costumam avocar como pertença, qualquer membro de um governo que, tal como o primeiro-ministro português, Passos Coelho, tivesse fugido às suas obrigações fiscais, sentia-se obrigado a pedir imediatamente a sua demissão. Em Portugal não é assim, quer pela falta de carácter e de honorabilidade da maioria dos membros da classe política, quer pela ausência de uma opinião pública civicamente exigente. E isto é uma questão eminentemente cultural, que resulta de um complexo processo de sedimentação social, através da História. Os países da Reforma luterana, porque passaram a valorizar a dignidade do trabalho, fundaram uma moral superior, em comparação com a moral dos países da Contra-Reforma tridentina, nos quais se incluía Portugal, países estes que continuaram agarrados, até à Revolução Francesa e atá a todas as outras revoluções, que nela se inspiraram, aos paradigmas residuais e às arcaicas estruturas mentais e sociais da Idade Média, em que ainda imperava o conceito da servidão, pelo que, aos senhores, tudo era permitido, até a imoralidade.
AC

Agradecimento



Agradeço ao Armando Paulo Costa a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

O suplício da contagem do Tempo...


A trabalheira que não deu agarrar o tempo, para o medir! E, mesmo assim, as contas ainda não batem certo. Para acertar a medida do sapato ao tamanho do pé, este ano até vai perder um segundo. Isto, porque não há coincidência, ao nível do micro-segundo, entre o número de segundos, contido no nosso calendário de 365 dias e o tempo real que a Terra demora a dar uma volta completa em torno do Sol.
A existência do ano bissexto, em que Fevereiro aparece no calendário com 29 dias, de quatro em quatro anos, tem a mesma finalidade: a de sincronizar o tempo marcado no calendário com o tempo real de uma translação completa do nosso planeta, à volta do astro-rei. Isto, para que a bota dê com a perdigota ou para que o sapato corresponda à medida do pé. Matematicamente complicado? Muito! Mas a Matemática tem uma capacidade infinita igual à do universo e tanto funciona aqui, na Terra, como funciona em Marte.
Paremos aqui, para pensar no Universo: no seu movimento, na sua origem, na sua existência, na sua grandeza, e, aqui, volte a parar e não canse mais o cérebro, porque não vai lá. É humanamente impossível pensar o que é a grandeza do universo. Há quem fique maravilhado, mas também há quem fique doido. Eu pertenço ao segundo grupo. Mas não desanime se está integrado(a) no meu grupo, pois começa a haver esperança de cura. Os físicos e os astrónomos trabalham nesse sentido, varrendo os céus com os seus potentes telescópios, num afã desesperado para tocar na unha, do dedo polegar da mão direita de Deus, ou da mão esquerda, admitindo que Ele possa ser canhoto. E eu farto-me de pedir a Deus para que Deus seja canhoto, o que é um absurdo, tal como é absurdo pensarmos nisto tudo e acabarmos por ficar a olhar para o vazio. Um vazio horrível, que também assustou os humanoides, quando começaram a articular as primitivas formas de pensamento lógico e abstrato, o que os levou logo a inventar a figura de Deus, que, na altura, eles figuravam, provavelmente, apenas como uma nebulosa difusa e translúcida. Assim, ficaram mais calmos, sempre que ouviam os trovões ou sentiam, de tempos a tempos, a terra a tremer, debaixo dos pés. Felizmente, para nossa sorte, com o correr lento do próprio tempo da evolução da espécie, também inventaram o fogo, a roda, e toda uma série de úteis invenções, até chegarmos aqui, a este texto, e a outros milhares de textos da mesma natureza, para nos interrogarmos, olhando, de forma abrangente, para o nosso longínquo passado e hesitando em olhar para o futuro. Como será? Ainda não ouvi ninguém responder, porque a pergunta também é absurda. Tal como absurda será uma qualquer hipotética resposta.

Alexandre de Castro

Grécia Governo tenta conciliar promessas eleitorais com realidade europeia


O aguardado braço de ferro entre Atenas e as instituições europeias definiu os primeiros 30 dias do Governo do primeiro-ministro grego Alexis Tsipras, líder do partido da esquerda radical Syriza que venceu destacado as legislativas de 25 de janeiro.
o rescaldo de três semanas de grande tensão negocial, Tsipras considerou ainda no sábado que o Governo da esquerda radical garantiu "muito sucesso" mas que tem perante si "uma estrada longa e difícil".

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Depois da reviravolta eleitoral da Grécia, na Europa, já nada será igual ao passado. Nesta guerra entre a Grécia e as instâncias da UE houve, nitidamente, um derrotado: a austeridade. Mais nenhum ministro dos governos europeus se atreverá a pronunciar tal palavra, a não ser para afirmar que a austeridade deve acabar, embora intimamente todos eles estejam a pensar em perpetuá-la.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Fotografias da memória: Homenagem em linha ascendente… [Poema]


João de Castro (poeta e dramaturgo) | avô paterno

João de Castro (poeta e dramaturgo) | avô paterno
Linhares de Ansiães

Idalina Alice Costa | avó paterna

Álvaro de Castro (poeta) | tio-avô paterno
Linhares de Ansiães

Guilherme Lopes Trigo e Maria da Conceição | avós maternos

Virgílio de Castro (estudante no Porto) | meu pai

Meu pai e minha mãe, Ana Júlia Lopes
(Carrazeda de Ansiães)
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escultura sem título de Roberto Aizenberg

Homenagem em linha ascendente…

Aos meus pais
Aos meus avós

Ainda não paguei a dívida da vossa dádiva.
Nem sei se a pagarei.
O pó do tempo dissolve-se na memória
e ainda sinto o veludo dos afagos
e o respirar das vossas vidas.
As palavras ainda são as mesmas
- as desenhadas pelas incandescências
do fogo dos vossos lábios
e pelo eco das ressonâncias das vossas falas.
E é assim que vos trago no meu peito
enquanto vou traçando as marcas do meu caminho…

Alexandre de Castro

Lisboa, Dezembro de 2014

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Ministro espanhol vem dar lições aos portugueses


"São ambos governos reformistas e progressistas [o de Portugal e o de Espanha]. Os números demonstram que os países onde fizemos reformas -- Portugal, Irlanda e Espanha -, em circunstâncias muito difíceis, começam a recolher os frutos e os dividendos desse esforço. Falta um longo percurso, mas estamos convencidos de que estamos no bom caminho", destacou.
"Preserva-se o princípio de que as dívidas devem pagar-se, os compromissos devem honrar-se e o financiamento deve estar ligado ao cumprimento de condições que assegurem a sua devolução. Reforça-se o princípio de que a União Europeia e o Eurogrupo se regem por regras que foram tomadas por todos e que, portanto, se devem cumprir", considerou ainda García-Margallo.

García-Margallo - ministro dos Assuntos Exteriores e da Cooperação de Espanha, em conferência de imprensa, em Portugal.

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Fiquei mais descansado, por ouvir o ministro espanhol dizer que Portugal, Irlanda e Espanha estão no bom caminho. O problema é que o caminho é longo “como o caraças”, e não se vê fim à vista.
Também estou de acordo que as dívidas devem pagar-se. Mas eu, apesar de não perceber nada de política nem de finanças, não fui ouvido nem achado sobre as tais regras “que foram tomadas por todos”, nem essas regras foram devidamente explicadas, cá ao pagode. Apenas nos disseram que era para nosso bem, e eu só comecei a perceber que era para nosso mal, quando comecei a levar com a austeridade em cima do toutiço.
Oh, senhor ministro, vá lá pregar para a sua terra, porque de Espanha, nem bom vento nem bom casamento.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Documento oficioso distribuído pelo governo grego no fim da reunião do Eurogrupo

Manifestação na Grécia

Comentário sobre o acordo na reunião de emergência do Eurogrupo

1. O dia de hoje marca uma viragem para a Grécia. Negociações significam dar luta sem recuar no mandato popular recebido. Ficou provado que podia ter acontecido uma negociação ao longo destes anos e que a Grécia não está isolada, não caminha em direção ao precipício e não continuará com o Memorando.

2. O plano para encurralar o governo Grego até 28 de fevereiro foi derrubado. O plano estratégico fundamental para este período temporal (4 meses), no quadro de um acordo intermédio que nos dará a possibilidade de negociar, foi bem sucedido.

3. As tentativas de chantagem das últimas 24 horas deram em nada. O pedido para uma extensão do acordo de empréstimo acabou por ser aceite em princípio, e constitui a base para as próximas decisões e para o que aconteça a seguir.

4. As medidas de recessão a que o anterior governo estava vinculado foram derrubadas (o email de Hardouvelis sobre os cortes nas pensões, aumentos de impostos, etc.), bem como os acordos sobre os excedentes primários exorbitantes.

5. O edifício extra-institucional da TROIKA, que estava a dar ordens e se tornou num superpoder, acabou.

6. O novo governo Grego apresentará a sua própria lista de reformas para a próxima fase intermédia, propondo aquelas que constituam um ponto de encontro.

7. O governo Grego e a Europa irão tomar o tempo necessário para que comece a negociação tendo em vista a transição final, de políticas de recessão, desemprego e insegurança social para políticas de crescimento, emprego e justiça social.

8. O governo Grego prosseguirá com lucidez a sua governação, tendo ao seu lado a sociedade Grega, e continuará a negociação até ao acordo final no verão.

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Em dois textos anteriores, assinalei que Grécia não saiu derrotada neste duro embate com a Alemanha e com as instâncias da União Europeia. Pelo contrário, conseguiu impor a aceitação do princípio de que o governo não irá implementar mais nenhuma medida de austeridade, o que irá refletir-se na queda do saldo orçamental primário, em 2015. As medidas de austeridade, que o governo anterior já tinha programado, ficam, assim, sem efeito É certo que a Grécia abdicou de algumas exigências iniciais, mas isso não é motivo para alimentar as críticas, que já começaram a surgir dentro do próprio Syrisa. Este não é o momento da divisão. Tem de ser um momento de grande unidade, à volta do governo de Alexis Tsipras, para lhe dar força e confiança para os novos embates com a UE, nos próximos quatro meses.
A uma amiga que me interpelou sobre este asunto, respondi: “Eu também fiquei desiludido, assim como todos os portugueses que estão solidários com o martirizado povo grego. Mas os governantes têm de assumir o realismo das situações. E, na Grécia, a situação seria dramática se o governo, em Março, não tivesse dinheiro para pagar aos funcionários públicos. Foi uma negociação muito dura, de um contra todos e de todos contra um, mas o ministro das Finanças grego, além da sua tenacidade e determinação, revelou qualidades ímpares de negociador. Perante a opinião pública europeia, ele ficou bem visto. O Eurogrupo e a Merkel, é que não”.
Pela primeira vez, acontece uma rebelião dentro da União Europeia. Pela primeira vez, um pequeno país, inferiorizado e humilhado por uma crise dramática, aparece a desafiar a toda  poderosa Alemanha e a sua chanceler. Pela primeira vez, foi possível ver, à vista desarmada, que a União Europeia não é um espaço de solidariedade, mas um meio de negócio encapotado, destinado a favorecer os seus países mais ricos, principalmente a Alemanha, à custa dos países mais pobres, através do traiçoeiro processo de endividamento induzido. E este glorioso feito foi protagonizado pelo governo grego.
Para encontrarmos algo de semelhante, será necessário recuar até à década de sessenta, do século passado, quando o General De Gaule, num gesto patriótico, para marcar a dignidade da França, bateu estrondosamente com a porta aos americanos, decretando a saída da França da estrutura militar da NATO.
Eu só espero que, a breve prazo, Portugal também se levante em peso, para também poder dizer-se que recuperámos a dignidade e a plena soberania. 

As caras do Bloco Central de Interesses da Alemanha

Angela Merkel, chanceler da Alemanha, e Sigmar Gabriel,
Presidente do SPD e seu vice-chanceler e ministro da Economia

A prova da íntima cumplicidade, entre os partidos socialistas, agrupados no Partido Socialista Europeu, e os partidos da direita, está bem explicitada na coligação governamental, na Alemanha, em que Sigmar Gabriel, vice-presidente e ministro da Economia  e Presidente da Partido Social-Democrata da Alemanha, e Angela Merkel vivem politicamente em comunhão de bens. Ambos são adeptos da austeridade forte e feia.
E é este tipo de comunhão de interesses que serve de paradigma para todos os países da UE. 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Notas do meu rodapé: Os socialistas à procura do discurso eleitoralista mais favorável


A família política socialista e social – democrata, agrupada no Partido Socialista Europeu (PSE), reuniu-se no sábado em Madrid, tendo aprovado duas resoluções conjuntas, sobre o combate ao terrorismo e a necessidade de reorientar a política europeia para o crescimento e o emprego.
Como é que os dirigentes destes partidos, que se dizem de esquerda, vêm agora declarar - como se tratasse de uma proposta original, nunca abordada pelos partidos mais à sua esquerda, como é caso do PCP e do BE, em Portugal - que é necessário acabar com a austeridade na Europa e inverter o ciclo político, apostando em políticas de crescimento económico e de crescimento do emprego, quando a maior parte daqueles partidos (socialistas, sociais-democratas) são cúmplices ativos ou passivos, conforme tivessem estado no poder ou na oposição, dessas mesmas políticas de austeridade, que estão a arrasar as economias dos países do sul da Europa, principalmente as de Portugal e a da Grécia?! Como é possível tanto descaramento, por parte destes dirigentes, que são uns autênticos moluscos, sem coluna vertebral, incapazes de anunciar os meios para implementar as tais políticas, que anunciam, ficando-se, modestamente, pela enunciação de objetivos genéricos e sedutores, sem que se pronunciem sobre os problemas estruturais da crise, nomeadamente sobre a necessária revisão do Tratado Orçamental e a necessidade de renegociar e reestruturar as dívidas públicas?! Isto, num momento em que muitos políticos e economistas conservadores já contestam também tais políticas, ou, pelo menos, duvidam do seu sucesso?
Nós já sabíamos que os partidos da Internacional Socialista, da qual os partidos nacionais do PSE são membros efetivos, têm servido de escudo ao capitalismo económico e financeiro, tentando evitar a influência, a progressão e o crescimento dos partidos e movimentos políticos, que são considerados uma ameaça potencial para o sistema instituído, sistema este que foi completamente capturado, de forma oculta, pelo mundo ligado ao capital, e que se tornou cada vez mais agressivo e poderoso, como hoje se pode verificar, em relação à crise da Grécia. Quando os partidos retintamente de direita e que simulam menos a sua natureza de classe, são corridos pela via eleitoral, lá estão os partidos da Internacional Socialista a cumprir o seu papel na alternância democrática, mas sem nunca pôr em causa os princípios fundamentais do sistema. E o problema reside no próprio sistema, que foi desenhado e implementado para beneficiar as classes possidentes e, principalmente, o capital financeiro. E não é por acaso que todos os candidatos a primeiros-ministros e a outros cargos de âmbito internacional, pertencentes à área socialista, também têm de passar pelo crivo seletivo do Club Bilderberg.
A presente crise da Europa teve o mérito de clarificar, para muita gente, a natureza híbrida destes partidos. Assumem uma linguagem de esquerda, enquanto se encontram na oposição, mas, uma vez no poder, fazem uma política de direita, embora a suavizem com umas tantas medidas de cariz socializante. Poderemos dizer que os partidos conservadores e os partidos da área socialista e social-democrata são dois ramos da mesma árvore ou as duas faces da mesma moeda.
Porque se encontram na mó de baixo e porque não tiveram tempo, durante esta crise, de mistificar o seu posicionamento, foram triturados por ela. O caso mais flagrante é o do PASOK, o partido socialista grego, que se transformou num partido minúsculo e residual, sem expressão eleitoral. O socialista François Holland conseguiu a proeza de ser o Presidente de França mais impopular da V República, a República que foi instituída pelo general De Gaule, na década de sessenta do século passado. O PSOE está a um passo de ser ultrapassado pelo vigoroso partido, o PODEMOS. Não temos dúvidas que o PS de António Costa acabará também por ser comido por esta voragem clarificadora, se vier a constituir o próximo governo de Portugal, e caso a Europa teime em manter o paradigma da austeridade.

Grécia Governo envia carta a Bruxelas com as reformas que pretende


O Ministério das Finanças grego vai enviar hoje uma carta de três páginas a Bruxelas com as reformas que pretende realizar para que as instituições façam uma avaliação inicial, segundo a agência Efe.
… Segundo os meios de comunicação locais, as medidas não incluem um custo concreto das reformas, mas são semelhantes às propostas políticas, ou seja, o Governo explica os seus métodos para combater a evasão fiscal, a corrupção, a reforma da administração pública e combater a crise humanitária.

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O governo grego, ao enviar para as instâncias europeias as propostas das reformas políticas, que se compromete a fazer, a fim de poder obter a dilatação do atual programa de apoio da troika, por mais quatro meses, adverte, implicitamente, ao afirmar que algumas dessas propostas não são negociáveis, por serem do foro da soberania nacional da Grécia, que chegou ao fim a sua disponibilidade em fazer mais cedências. 
Amanhã, segunda-feira, será o dia do tudo ou nada. A bola está agora nas mãos das instâncias das três entidades que constituem a troika, e que, caso rejeitem as propostas, ficarão com o ónus da culpa, de não quererem facilitar a vida a um governo, que se propõe arrecadar receitas para o Estado, através de programas orientados para a luta contra a corrupção e contra a evasão fiscal, objetivos estes que são muito mais justos e equitativos, do que, como os tecnocratas da troika gostam, aumentar impostos e cortar nos salários e nas pensões. A imagem das instâncias europeias também ficará afetada, dando de si uma péssima imagem, perante a opinião pública, se, com o seu veto, impedirem o governo grego de acudir ao seu povo - a passar por um doloroso sofrimento - lançando um programa para lutar contra a grave crise humanitária, que é também uma das suas propostas.

Medeiros Ferreira: O “profeta desarmado” no país da “disciplina partidária”


Constelação de estrelas mediáticas e políticas compareceu na Gulbenkian para “celebrar” a vida do ex-ministro que ajudou Portugal a entrar na CEE.
Por mais de uma vez, ao longo do último dia do colóquio que, na Fundação Gulbenkian, homenageou o desaparecido político e historiador próximo do PS, José Medeiros Ferreira, os intervenientes citaram a expressão com que o próprio político se caracterizava. Via-se como um “profeta desarmado”, recuperado da pena de Maquiavel, expressão que, mais tarde, viria a ser utilizada para catalogar Leon Trotsky. No entanto, ao longo das horas de palestras sobre as mais variadas “facetas” da vida do ex-ministro dos Negócios Estrangeiros que ajudou Portugal a entrar na CEE, o retrato que pairou no auditório foi de um profeta maldito.
PÚBLICO

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Conheci Medeiros Ferreira no Regimento de Infantaria Nº 1, na Amadora. Eu estava a cumprir o meu primeiro serviço militar obrigatório e ele apareceu para se enquadrar numa companhia, que partiria para África. À noite, no salão da Messe de Oficiais, juntamente com mais dois ou três alferes, discutíamos a política nacional, as greves académicas, das quais ele foi um dos líderes, e a Guerra Colonial. Medeiros Ferreira destacava-se do grupo, quer pela solidez do seu discurso, quer pela muita informação que recebia clandestinamente de vários grupos de exilados políticos, em França, na Suíça e na Argélia, Chegou a emprestar-me dois livros, em edição francesa, sobre a Guiné e sobre Amílcar Cabral.
Num certo dia e a uma certa hora, chegou a notícia ao Quartel: Medeiros Ferreira tinha desertado. 
É ele o autor daquela célebre sigla dos três "D": Democratizar, Descolonizar e Desenvolver, que titulou a sua tese, que ele, da Suíça, fez chegar ao III Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, através da sua mulher, e que, posteriormente, foi recuperada pela revolução de Abril.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Notas do meu rodapé: A Grécia não perdeu a guerra. Perdeu apenas uma batalha (2)


Tsipras diz que acordo com o Eurogrupo “deixa para trás a austeridade"
“Ganhámos uma batalha mas não a guerra. As dificuldades reais estão à nossa frente”, afirmou o primeiro-ministro grego numa declaração televisiva em que prometeu que os despedimentos e os cortes não vão voltar.

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Deixem-me manifestar uma ponta de vaidade. Ontem, por volta da meia-noite, e muitas horas antes de Alexis Tsipras prestar as primeiras declarações sobre o "promissor" entendimento entre o Eurogrupo e o governo grego, eu escrevi aqui e na minha página do Facebook uma análise sucinta àquele entendimento, subordinada ao título " A Grécia não perdeu a guerra. Perdeu apenas uma batalha", metáfora que o primeiro-ministro grego também veio a utilizar, para demonstrar que a Grécia conseguiu marcar pontos na sua trajetória para estancar o ciclo evolutivo da espiral austeritária. Esta coincidência, a nível da formulação verbal, deu-me a certeza de que a minha avaliação do resultado da reunião do Eurogrupo com o ministro das Finanças grego estava correta.
E está correta. Se o governo grego mostrou flexibilidade negocial, ao retirar algumas das exigências iniciais, também o Eurogrupo, até ali arrogante e intransigente, teve de ceder. E cedeu precisamente no aspeto mais importante exigido aos países intervencionados pelas três instituições da troika: o equilíbrio orçamental, que é objetivo central que inspira todas as medidas de austeridade assumidas pelos governos intervencionadas, mesmo aquelas que parecem desligadas da prossecução daquele objetivo, como foi o caso, entre nós, da realização dos exames aos professores, para poderem dar aulas e, mais recentemente, os acordos com algumas autarquias, para as quais vão ser transferidas algumas competências do poder central, nas áreas da Saúde e da Educação. Estas duas medidas têm marcadamente fins financeiros, embora dissimulados e encobertos, pois destinam-se a aliviar a despesa do Estado. A primeira tem efeitos imediatos, através da redução de efetivos, na área da docência das escolas. E a segunda tem efeitos dilatórios, pois no futuro os governos vão progressivamente reduzindo, sem alarme social, as verbas orçamentais a transferir para os municípios.
Quando eu, ontem, dizia, que o governo grego conseguiu anular as medidas de austeridade futuras, que já estavam programadas pelo governo anterior, é porque o Eurogrupo deixou cair a cláusula imposta à Grécia, pela troika, de alcançar um saldo primário orçamental de três por cento, no corrente ano.
Agora, apenas falta que, na segunda feira, os representantes das três instituições da troika concordem com o plano de reformas, a apresentar pelo governo grego, para garantir que o balanço financeiro da Grécia não comprometa a sustentabilidade de situações já adquiridas anteriormente (e foi deste lado da questão que o governo grego perdeu a batalha). No entanto, a guerra não está perdida.
AC

Notas do meu rodapé: A Grécia não perdeu a guerra. Perdeu apenas uma batalha


À primeira vista, lendo as notícias sobre o acordo a que chegaram os ministros das Finanças do Eurogrupo, em relação à Grécia, fica a amarga sensação que o governo grego sofreu uma derrota. Mas não é bem assim. Apertado pelas necessidades de financiamento a curto-prazo, o que retirava espaço de manobra ao ministro das Finanças grego, a Grécia conseguiu obter o prolongamento, por mais quatro meses, do atual programa da troika, que terminaria em finais deste mês, período durante o qual nenhuma imposição austeritária poderá ser feita pelo Eurogrupo, ao mesmo tempo que o governo de Atenas renuncia a tomar medidas que aumentem a despesa do Estado. Isto quer dizer que o povo grego não vai, para já, beneficiar da prometida redução da austeridade, através, entre outras medidas, do aumento do salário mínimo, mas, em contrapartida, essa austeridade não irá agravar-se, o que inevitavelmente aconteceria se um governo de direita continuasse no poder. E isto, porque, para a Grécia cumprir o objetivo, estabelecido com a troika, de atingir um saldo primário orçamental de mais três por cento, este ano, e mais quatro por cento em 2016, seria necessário decretar mais austeridade, quase da mesma amplitude do que aquela que já foi imposta.
Por outro lado, o governo de Atenas espera ganhar tempo, para que, daqui a quatro meses, reúna condições mais favoráveis para obter mais cedências da Europa.
Por sua vez, os governos mais fundamentalistas, com o governo alemão à cabeça, seguido caninamente pelos governos de Portugal e Espanha, esperam a desmobilização dos apoiantes gregos e europeus, em relação ao seu apoio ao Syrisa, para depois meterem a Grécia num colete de forças e impor mais austeridade no futuro.
Por isto tudo, pode-se dizer que a Grécia não perdeu a guerra. Ela apenas perdeu uma batalha.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

A humilhação não paga dívidas


A carta, que mostra já uma grande boa vontade do Syriza em negociar, mal tinha saído de Atenas e já um porta-voz do Ministério das Finanças da Alemanha lia um comunicado a dizer que o pedido da Grécia não cumpria os requisitos mínimos do Eurogrupo. Uma posição de inflexibilidade que parece fechar portas à discussão e que só serve para humilhar os gregos e os seus representantes. E assim não há negociação que aguente. Pelo menos uma que seja feita com alguma dignidade.

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Tudo o que está a acontecer, em relação ao atual problema da Grécia, mostra uma coisa, que eu já assinalei várias vezes: a deriva totalitária e arrogante da Alemanha, na liderança da Europa. 
Ainda irá chegar o dia, em que a França tenha também de se ajoelhar, de forma humilhante, perante o seu histórico rival, num ajuste das velhas contas do século passado.
Deixo novamente uma minha afirmação, que já é recorrente: A Hitler de saias está a fazer com o garrote do euro e da dívida, aquilo que o Hitler do bigodinho e da guedelha não conseguiu fazer com os tanques e os canhões.