terça-feira, 21 de Outubro de 2014

O Crato



Publicado a 18/10/2014 no You Tube
(Original " O Pato" cantado por João Gilberto)
Música - Jaime Silva / letra - Neuza Teixeira
Adaptação (Letra) - Nuno Gomes dos Santos

Voz Carlos Mendes

sábado, 18 de Outubro de 2014

Overton: como aceitar uma coisa intolerável


Muitos de nós conhecem os métodos através dos quais os políticos e os seus assessores de imprensa influenciam a opinião pública. Digamos que isso já é um dado adquirido nas chamadas democracias ocidentais e, por isso, por vezes somos céticos em aceitar propostas políticas, que tantas vezes são criadas artificialmente nos gabinetes das empresas de assessoria.
Ora essas “tecnologias” parecem brincadeiras de crianças comparadas com uma relativamente recente (desenvolvida nos anos 90) que tem por objetivo tornar aceitável na sociedade algo que, antes, era totalmente inaceitável e intolerável.
Trata-se da Janela de Overton, um modelo de engenharia social criado por Joseph P. Overton (1960–2003), ex-vice-presidente de um think tank norte-americano chamado Mackinac Center for Public Policy (Centro Mackinac para Políticas Públicas).
Overton criou um modelo para demonstrar como um pequeno grupo de pensadores, (think tank) pode mudar de forma intencional e gradual a opinião pública. A Janela de Overton é o conjunto de ideias "aceitáveis" num dado momento na sociedade.
A gradação das opiniões da sociedade em relação a determinado tema vão desde:
Intolerável (impensável);
Radical;
Aceitável;
Sensato;
Consensual;
Consagrado em políticas públicas.
Esta gradação corresponde a uma outra: proibido, proibido com ressalvas, neutro, permitido com ressalvas, permitido livremente.
Os think tanks constituem conjuntos de pessoas que produzem e divulgam opiniões fora da Janela de Overton com a intenção de tornar a sociedade mais recetiva a tais ideias e políticas públicas.
Quando esse grupo de fazedores de opinião quer promover uma ideia que está fora do que a opinião pública considera razoável, ou seja, que a sociedade não aceita, ele pode adotar uma série de procedimentos graduais que farão as pessoas mudar completamente de ideias em pouco tempo.


Assim, através da sua ação na mídia, vai-se introduzindo no discurso público ideias a princípio consideradas inaceitáveis, radicais, impossíveis de implementar, mas que, com a sua exposição ao público, passam de inaceitáveis a toleráveis e, posteriormente – na última fase – são consagradas na legislação.
Aplicando o modelo à vida política, constata-se que numa sociedade existe um conjunto de temas políticos que não causam polémica, ou seja, de entre todas as políticas públicas possíveis, há um conjunto delas que é aceite pela maioria da população sem que haja grandes debates. Esta é a Janela de Overton.
Como já dissemos, a posição da janela não é imutável, sendo que ela pode ser manipulada para introduzir novos temas ou mesmo excluir temas que já foram aceitáveis. Os políticos que desejem ter mais hipóteses de ser eleitos apenas devem assumir posições políticas que se encaixem dentro da Janela de Overton.
Para entender como a opinião pública pode ser mudada gradualmente costuma-se usar o exemplo do casamento gay (e também da eutanásia infantil). Durante anos, a Janela de Overton esteve na área do proibido, a sociedade não podia aceitar a ideia do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Com a constante exposição dos argumentos pró-gay na mídia, a janela foi-se deslocando para proibido com ressalvas, depois para neutro, até chegar onde está hoje: permitido com ressalvas. Em breve será permitido livremente. Para que haja o deslocamento da Janela de Overton para posições que sejam de interesse de determinados grupos é aplicado um esforço altamente profissional, que faz parte do que se convencionou chamar de engenharia social. Este esforço é assegurado por um enorme número de especialistas em opinião pública: técnicos, cientistas, assessores de imprensa, relações públicas, institutos de pesquisa, celebridades, professores, jornalistas, etc.
Muito curioso é o fato de tais temas (casamento gay, eutanásia) já não nos causarem estranheza. Como se viu, eles já passaram por todo o processo de conversão de “inaceitável” em “consagração na legislação”.
Mas um conhecido cineasta russo, Nikita Mikhalkov, no seu vídeo-blog Besogon.TV, propõe-nos, para compreender melhor este processo, um tema que ainda é intolerável na sociedade: o canibalismo.
Creio que o fato de ter escolhido uma prática que hoje é totalmente proibida e inaceitável facilita a nossa compreensão de como as coisas se processam ou poderão processar. Há ainda outros temas que hoje a sociedade não tolera mas que pode vir a tolerar, como a eutanásia infantil ou o incesto.
Segundo ele, o deslocamento da Janela de Overton no que toca ao canibalismo poderá passar pelas seguintes etapas:

Etapa 0 – É o estado atual, o tema é inaceitável, não se discute na imprensa ou em geral entre as pessoas.
Etapa 1 – O tema passa de “completamente inaceitável” para apenas “radical”. Alegando que deve haver liberdade de expressão e que não deve haver tabus, o tema começa timidamente a ser discutido em pequenas conferências, onde se obtém uma declaração de um cientista respeitável, promove-se o debate “científico”. É criada, digamos, uma Associação de Canibais Radicais, que passa a ser citada na mídia. Aqui o tema deixa de ser tabu, é introduzido no chamado espaço informativo.
Etapa 2 – O tema do canibalismo passa de “radical” para a área do “possível”. Os cientistas continuam a ser citados, é criado um nome elegante: já não há canibalismo mas sim, por exemplo, “antropofagia”. Posteriormente este termo passa também a ser considerado ofensivo e a prática começa a ser designada, suponhamos, por “antropofilia”. O objetivo é desligar a forma da designação do seu conteúdo. Paralelamente é criado um precedente histórico de apoio. Pode ser um fato mitológico, um fato atual ou apenas inventado mas, o mais importante, é que contribua para legitimar a prática. O principal objetivo desta etapa é retirar parcialmente a “antropofagia” da ilegalidade, nem que seja num único momento histórico.
Etapa 3 – Passa-se da fase do “possível” para a fase do “racional” ou “neutro”. São apresentados argumentos como “necessidade biológica”. Afirma-se que o desejo de comer carne humana pode ser genético, “próprio da natureza humana”. Em caso de fome grave, de “circunstâncias insuperáveis”, uma pessoa livre deve ter o direito de fazer escolhas. Não se deve esconder a informação para que todos possam assumir que são “antropófilos” ou “antropofóbicos”.
Etapa 4 – Na opinião pública é criada uma polémica artificial sobre o tema. A sua popularização apoia-se não só em personagens históricas ou mitológicas mas também em figuras mediáticas atuais. A antropofilia começa a entrar massivamente nas notícias, nos talk-shows, no cinema, na música pop, nos videoclips. Um dos métodos da popularização é o chamado “olhe à sua volta”. Por acaso você não sabe que um conhecido compositor é antropófilo?
Etapa 5 – Nesta etapa o tema é lançado no top da atualidade: começa a reproduzir-se automaticamente na imprensa, no show business e… na política. Nesta etapa, para justificar os adeptos da legalização, é utilizada a “humanização” dos adeptos, (“são pessoas criativas”, “os antropófilos são vítimas da educação que tiveram”, “quem somos nós para os julgar?”
Etapa 6 – Nesta fase, a prática passa de “tema popular” para o plano da “política atual”. Começa a ser preparada a base legislativa, aparecem grupos de lobby, publicam-se pesquisas sociológicas que apoiam os adeptos da legalização. Introduz-se um novo dogma – não se deve proibir a “antropofagia”. Aprovada a lei, o tema chega às escolas e jardins de infância e, consequentemente, a nova geração já não conhece como poderá pensar de forma diferente.

Como disse acima, este exemplo sugerido pelo cineasta Nikita Mikhalkov não deixa de ser hipotético.
No entanto, não teria sido assim que todas as “novas práticas”, impensáveis há poucas décadas, entraram na nossa sociedade e se tornaram aceitáveis aos olhos de toda a gente?
Cristina Mestre

Texto enviado pelo meu amigo Diamantino Silva.


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Esta subtil técnica de engenharia social de manipulação mediática (intoxicação da opinião pública) tem sido usada intensivamente em Portugal, principalmente nos últimos anos. A teoria das "Gorduras do Estado" e a da "Os portugueses viveram acima das suas possibilidades" foram, talvez, as mais emblemáticas.  No momento, está a começar a ser aplicada a campanha que conduza a opinião pública a aceitar como inevitável a continuação das atuais medidas de austeridade e, possivelmente, o seu agravamento, se a situação económica se degradar, e a retomar uma outra, já iniciada em 2013, orientada para promover a aceitação da necessidade imperiosa de um entendimento político entre do PS e o PSD.
Como este trabalho, desde a conceção à execução, não é feito por amadores, o governo contrata agências especializadas, que se fazem pagar a peso de ouro, o que se apresenta como um paradoxo escandaloso, uma vez que são os portugueses a pagar a sua própria intoxicação.
AC

sexta-feira, 17 de Outubro de 2014

Orçamento de Estado 2015: Oh, Abreu!... Dá cá o meu!...


Trata-se de um orçamento atípico, pois remete a sua viabilidade e cumprimento para um pressuposto crescimento económico, com um nível para além das previsões pessimistas já efetuadas. Aposta-se mais na incerteza do que na racionalidade e objetividade, que lhe faltam.
Mantém a austeridade anterior, mas globalmente acaba por a acentuar ainda mais. Projeta um novo e histórico valor máximo para a carga fiscal (impostos mais contribuições para a Segurança Social), o que não abona a favor da magnanimidade com que subliminarmente o quiseram caracterizar. 
O PÚBLICO salienta que é um orçamento difuso a cortar despesas e concreto a aumentar impostos, assentando-lhe que nem uma luva, segundo o meu ponto de vista, aquele dito popular "Oh, Abreu!... Dá cá o meu!".  
Tentando caricaturá-lo, eu diria que é um orçamento que põe dinheiro num dos bolsos dos contribuintes, para tirá-lo do outro bolso. Alivia os reformados da dura austeridade de três martirizados anos, mas irá ressarcir-se com os aumentos da eletricidade e dos combustíveis, através da fiscalidade verde, com a agravante de que este novo imposto vai incidir no preço dos bens, já com o IVA incluído, o que prefigura uma situação ilegal, pois está a pagar-se um imposto sobre um outro imposto.
Mas também é um orçamento da continuidade, pois, na sua conceção, domina a ótica de um fundamentalismo contabilístico, fixado obsessivamente no défice orçamental e ignorando por completo o bom funcionamento do Estado e o desenvolvimento económico do país, ao proceder a cortes cegos na Educação, na Justiça e nas organizações das forças policiais e nos organismos de investigação criminal, entre outros.
É um orçamento elaborado com uma hábil engenharia financeira, para iludir aquilo que é óbvio: os portugueses, no seu conjunto, vão pagar mais impostos.

terça-feira, 14 de Outubro de 2014

Com o euro, Portugal nunca poderá arrancar para um crescimento sustentado


Importações surpreendem Banco de Portugal e forçam revisão em baixa do PIB

O consumo privado e o investimento até foram mais fortes do que o previsto e as exportações ficaram dentro das expectativas, mas uma aceleração mais rápida das importações do que aquilo que o Banco de Portugal esperava em Junho forçou a uma revisão em baixa da sua estimativa de crescimento em 2014, de 1,1% para 0,9%.
A nova previsão fica ligeiramente abaixo dos 1% estimados pelo Governo e pelo Fundo Monetário Internacional.
No Boletim Económico de Outubro publicado nesta quarta-feira, o Banco de Portugal passou, face ao que tinha feito em Junho, a estimar uma recuperação do consumo e do investimento mais rápida durante este ano. O consumo privado irá aumentar 1,9%, diz o banco central, contra os 1,4% projectados antes. No investimento, aponta-se agora para um crescimento de 1,6% (o primeiro desde o início da crise), em vez de 0,8%.
Ao nível das exportações, que foram afectadas pela interrupção registada na produção de combustíveis na Galp no início do ano, o Banco de Portugal manteve quase inalterada a sua estimativa para 2014. Em Junho, previa um crescimento de 3,8% (face a 6,4% do ano anterior) e agora passou para 3,7%.
Nas importações, pelo contrário, houve surpresas. Em Junho, apontava-se para uma variação de 4,6%, mas agora o banco diz que vão crescer 6,4%. O aumento maior do consumo e do investimento foi um dos factores para esta surpresa, mas a revisão em alta das importações foi mais acentuada, o que provoca um crescimento do PIB mais baixo.
Feitas as contas, o contributo da procura interna para o crescimento será de 1,9 pontos percentuais, contra um contributo negativo da procura externa líquida (exportações menos importações) de um ponto percentual negativo. Em Junho, esperava-se um contributo da procura interna de 1,4 pontos e um contributo da procura externa líquida de -0,3 pontos percentuais.
Para garantir um crescimento mais forte e sustentado no futuro, o Banco de Portugal repete no relatório publicado nesta quarta-feira a sua receita: reduzir o endividamento externo através da desalavancagem dos sectores público e privado, manter a estabilidade do sistema bancário, garantir a sustentabilidade das finanças públicas, cumprindo todas as metas europeias para o défice e a dívida pública, e a realização de reformas estruturais.

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Com uma moeda desajustada à produtividade da economia, como é o caso da economia portuguesa, as importações constituirão sempre um travão ao crescimento económico, ao anularem qualquer contributo positivo do lado do investimento e das exportações. E se o consumo interno subiu ligeiramente, ele ocorreu através dos bens importados, consumidos principalmente pelas empresas e pelas classes sociais de maiores rendimentos (por exemplo. os automóveis de gama alta).
Se o euro foi o responsável pelo nosso endividamento excessivo (endividamento induzido pelos grandes bancos europeus), e, por conseguinte, uma das causas desta gravíssima crise, ele, agora, também se constitui no principal obstáculo para a sua resolução.
Na atual situação, ou seja, a continuarmos presos ao euro, nunca a economia portuguesa conseguirá um crescimento suficiente para pagar a dívida externa, que continua a crescer, ao contrário dos objetivos acordados com a troika, que previam a sua descida.

domingo, 12 de Outubro de 2014

Nuno Crato e Paula Teixeira da Cruz: dois novos autores que vão brilhar no panorama literário português



Um novo mundo nasce no campo da ficção literária - o mundo Kafka-Cratiano. Nesta novela sobre a colocação dos professores, o absurdo da existência revela-se em círculos concêntricos de contradições irredutíveis. Nuno, o Crato, consegue adensar o pesadelo, vivido pelas suas múltiplas personagens, utilizando na narrativa, com genial mestria, os ingredientes dos distúrbios  provocados por uma plataforma informática, em que se introduziu uma fórmula matemática errada. O leitor, ao deixar-se envolver pelo ambiente opressivo da trama novelística, fica suspenso, com a curiosidade aguçada, sempre à espera do momento fatal, em que venha a ocorrer o suicídio coletivo das personagens. Mas Crato, que leu certamente os clássicos, e mais precisamente Homero, não se esqueceu, talvez inspirado nas aventuras de Ulisses, de introduzir no texto uma marca épica de heroísmo e de abnegação, ao criar aquela torturada personagem, um professor, que tem de percorrer semanalmente o país de lés a lés para dar aulas em 75 escolas diferentes. 
Também Paula Teixeira da Cruz se inspirou no livro mais célebre de Kafka, "O Processo", para escrever a sua novela "A anarquia da Justiça", embora não tivesse conseguido, ao contrário de Crato, construir aquele ambiente opressivo e denso, que tritura as consciências. E isto, porque a autora escolheu para personagens os papéis amarelecidos dos processos judiciais,  em vez de pessoas, ao mesmo tempo que,  e aqui, agora ao contrário de Kafka, colocou os juízes e os oficiais de justiça no papel dos "bonzinhos da fita". Em "A Anarquia da Justiça", o leitor não vê as vítimas. Apenas as pode imaginar no seu sofrimento. O que o leitor vê, e bem, através da enorme capacidade narrativa da autora, é a dança onírica e errática dos processos judiciais, que voam sem rumo e numa rebeldia constante, de um lado para o outro, na atmosfera etérea e caprichosa das nuvens internáuticas. Sem qualquer destino, porque subverteram as indicações da ordem de marcha, que lhes tinha sido dada, e apenas entregues aos desígnios secretos das aleatórias leis do caos, aqueles processos eletrónicos acabarem por aterrar nos sítios mais insólitos, como, por exemplo, nas sanitas destinadas ao uso exclusivo dos magistrados judiciais.  
Crato e Teixeira da Cruz vieram dar um novo alento à nova literatura portuguesa, quer pela originalidade temática e do processo narrativo, quer pela aprimorada inovação estilística. E isto, num momento em que rareiam escritores de exceção.
AC 

O regresso do Alpendre da Lua



Depois de ter suspendido, há perto de dois meses, a edição regular do Alpendre da Lua, e depois de ter ultrapassado algumas limitações, que me levaram a tal decisão, resolvi ressuscitá-lo, embora, no futuro, não possa transmitir-lhe, em termos editoriais, a regularidade e a frequência anteriores.
Quero aqui agradecer a todos os leitores que me fizeram chegar o seu desencanto, através das suas mensagens, enviadas pelos mais diversos suportes, lamentando a suspensão referida.
O Alpendre da Lua renasce para todos os leitores que a ele se fidelizaram e para os novos leitores, que o venham a descobrir. Mas, sobretudo, ele volta ao escaparate internáutico, porque o seu autor chegou à conclusão de que a sua existência lhe era necessária e fundamental.
Alexandre de Castro

segunda-feira, 18 de Agosto de 2014

Um adeus do Alpendre da Lua



Depois de mais cinco anos de edição, quase ininterrupta, o Alpendre da Lua chega ao seu fim, pela simples razão de que tudo aquilo que começa tem de acabar.
Iniciada a sua edição, no dia 21 de Maio de 2009, com a publicação do poema “Alba”, de Eugénio de Andrade, e atingindo uma expressiva dimensão estatística reproduzida no registo de 177.779 visitas, 21o seguidores, 318.825 visualizações de páginas e 3.809 publicações, o Alpendre da Lua vagueou por uma grande diversidade de temas, tendo-se posteriormente fixado na abordagem de temas políticos, económicos e ideológicos, com especial destaque para os referentes à crise financeira do nosso país, em que se procurou desmontar criticamente todas as narrativas que tentavam obscurecer as suas verdadeiras causas, assim como os hiperbólicos e delirantes elogios às erradas soluções para a resolver, e onde não faltou quem tivesse deitado mão ao argumento irracional das inevitabilidades.  
Foi um trabalho intelectualmente edificante e gratificante, além de ser também um trabalho civicamente militante. Sinto-me, pois, compensado.
Uma palavra de agradecimento para os vários colaboradores e colaboradoras, que, com os seus textos e as suas imagens, prestigiaram com o seu reconhecido mérito este blogue.
Mas o grande agradecimento vai para todos aqueles leitores, a maioria deles leitores anónimos, que passaram por aqui e que deram toda a razão de ser para que o Alpendre da Lua pudesse ter existido.
Obrigado.

Alexandre de Castro

Credit Suisse envolvido nos títulos de sociedades com dívida no GES


O banco suíço Credit Suisse terá ajudado a desenhar títulos para sociedades veículo offshore com dívida do Grupo Espírito Santo (GES), que mais tarde foram vendidos a clientes do mesmo grupo, noticia o Observador.
O Credit Suisse terá ajudado na venda de títulos das sociedades veículo offshore, compostos maioritariamente por dívida do Grupo Espírito Santo (GES), a clientes do mesmo grupo, avança o Observador.
Com base num artigo do jornal económico The Wall Street Journal, a mesma publicação indica que os clientes não sabiam que estas sociedades tinham como ativos a dívida das várias entidades que compunham o GES.
A instituição terá ajudado a desenhar os títulos para serem vendidos mas ainda não é claro que teve também um papel na venda dos mesmos, recusando-se a comentar estas alegações.

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Os bancos funcionam em rede a nível mundial, colaborando entre si para conseguirem maximizar os lucros do dinheiro, que eles próprios emitem, através das operações de crédito, uma função que deveria pertencer aos estados soberanos. O seu poder é imenso, sobrepondo-se, na prática, ao poder dos próprios estados. São eles que, através de diversos canais de pressão, e de uma forma oculta, determinaram as regras da atual ordem mundial, baseada nos princípios fundamentais do neoliberalismo, a doutrina económica que melhor serve os seus interesses. A nível político, controlam o poder, elegendo e apoiando em cada país dois partidos supostamente antagónicos, mas que aceitam implicitamente aquela ordem mundial, que não pode ser posta em causa.
Tanto nos dias de hoje, tal como no passado, nenhum processo revolucionário, que pretenda acabar com o domínio do capital sobre o trabalho, pode ignorar a a importância da nacionalização do crédito e a recuperação do poder do Estado em emitir moeda.   

domingo, 17 de Agosto de 2014

Agradecimento


Agradeço ao Jerónimo Dias a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua

António Costa: "Este Governo está esgotado nas suas soluções"


O candidato à liderança do PS António Costa considerou hoje que a sustentabilidade da Segurança Social não exige cortes nas pensões, mas a criação de emprego, acrescentando que o primeiro-ministro não apresentou uma proposta de reforma.
Para António Costa, o que põe em causa a sustentabilidade do sistema da Segurança Social não é o valor das atuais pensões, mas "a crise económica".
"Só o desemprego e a emigração, por perda de salários e por perda de contributos, criaram uma fragilidade de 8 mil milhões de euros", frisou.

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Quem assinou o Memorando de Entendimento (e o PS também o assinou) sabia que todas aquelas políticas concertadas com a troika (UE/BCE/FMI) conduziriam o país para a desgraça. Os signatários de tal acordo e todos os seus comparsas sabiam perfeitamente que, com os cortes brutais nas pensões e nas prestações sociais e o aumento, também brutal, dos impostos diretos e indiretos, o consumo das famílias iria levar um grande rombo e que as famílias mais pobres e as da classe média baixa iriam ter graves problemas de subsistência. Também sabiam que a economia iria estagnar, precisamente por causa da diminuição do consumo privado e do investimento, e que, perante este quadro, os jovens não tinham outra alternativa, senão a de emigrar. Também sabiam que, no âmago daquele acordo com a troika, e sem que isso fosse explicitado, havia a oculta intenção de atrofiar até ao limite os três pilares do Estado Social, o que está a ser feito com sucesso, para gáudio dos grupos económicos da saúde e da educação (igreja católica) e das seguradoras.
Tal como eu, também António José Seguro e António Costa sabiam disto tudo. Ou não sabiam?! E perante este quadro, verdadeiramente tenebroso, o que se impõe é que ambos digam aos portugueses, sem utilizarem os chavões da campanha eleitoral, como é que eles irão dinamizar a economia e aumentar os postos de trabalho para evitar a sangria emigratória, se ambos, com arreigadas convicções europeístas, concordam com o Tratado Orçamental, que vai obrigar a diminuir a despesa do Estado, para levar a dívida pública aos 60 por cento do PIB, tal como nele se preconiza. É que, tal como o memorando de entendimento com a troika, também o Tratado Orçamental é uma camisa de onze vares para os países mais endividados, como é o caso de Portugal e da Grécia. Estes dois países dificilmente se libertarão do garrote da austeridade, que, no futuro, ainda vai acentuar-se mais, depois das eleições legislativas do próximo ano. Se lá chegarmos…

Notas do meu rodapé: Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres.


Portugal está a ser uma cobaia da Europa, onde se pretende experimentar a funcionalidade de um modelo sócio-económico assente numa política de baixos salários e no atrofiamento do Estado Social. Se a experiência resultar, ela será expandida para os países mais pobres da UE.
Para o capitalismo europeu esta é a forma mágica para a economia europeia recuperar a competitividade perdida ao longo da última década, criando-se uma Europa económica a duas velocidades e até, possivelmente, cada uma delas com a sua moeda. O euro forte para os países ricos e o euro fraco para os países pobres. Com uma mão-de-obra disponível e de baixo custo, as unidades produtivas das grandes multinacionais europeias instalar-se-ão nos países do sul, para poderem competir no mercado global com as economias asiáticas, invertendo assim o ciclo autofágico da economia europeia, que vive essencialmente das exportações para os outros países do bloco da UE. A Alemanha, por exemplo, apenas exporta para fora do espaço europeu 40 por cento do total das suas exportações. O declínio da economia europeia, que não cresce, pode ver-se por este exemplo. Antes, a Alemanha exportava as máquinas para a China montar as suas fábricas. Depois, a China começou a construir essas máquinas, com menos custos, para o seu próprio setor industrial. A seguir, a China iniciou a venda dessas máquinas para os tradicionais mercados externos da Alemanha, fazendo-lhe uma forte concorrência, ao nível de preços. Atualmente, a China já vende essas máquinas à indústria alemã. Mas se a Alemanha deslocalizar as fábricas que produzem essas máquinas para Portugal e para a Grécia recupera a competitividade, através dos salários baixos.
Talvez assim se compreendam melhor os objetivos de longo prazo do ministro das Finanças da Alemanha, ao arquitetar os planos de austeridade para os países do sul da Europa, em que se procurou promover unicamente a desvalorização salarial, isentando de quaisquer cortes os rendimentos do capital.
Para criar ricos é necessário, primeiro, criar os pobres. É o que está a acontecer em Portugal e na Grécia.

Decisão de suspensão revolta ex-gestores do BES


Rui Silveira, António Souto e Joaquim Goes chegaram ao Banco Espírito Santo para trabalhar, em julho, e foram impedidos por cartas de suspensão assinadas pelo governador do Banco de Portugal. De acordo com o Sol, os ex-gestores contestam a “injustiça” da decisão e prometem resposta ao regulador.
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Agora, para a sequência ficar perfeita, só falta a ministra das Finanças demitir o Governador do Banco de Portugal, o primeiro-ministro demitir a ministra das Finanças, o Presidente da República demitir o primeiro-ministro, e a troika demitir o Presidente da República. Pelo menos, que Portugal seja um protetorado a sério e não um país "faz de conta".

Falta saber quem é que irá demitir a troika

sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

Se as consultas demorassem apenas 15 minutos, não haveria falta de médicos de família!...


Tribunal de Contas recomenda ao Ministério da Saúde que liberte médicos dos centros de saúde de tarefas administrativas.E critica exclusão de utentes das listas de médicos de família “por razões administrativas”.
O Tribunal de Contas (TC) encontrou uma hipotética solução para a falta de médicos de família, problema que os sucessivos ministros da Saúde têm tentado resolver ao longos dos anos, sempre sem sucesso. Considerando que o tempo médio de uma consulta dos médicos dos centros de saúde era, há dois anos, de 21 minutos, uma equipa de auditores do TC fez contas e concluiu que, caso se assuma como “razoável” o tempo de 15 minutos para o atendimento, seria possível fazer mais 10,7 milhões de consultas.
PÚBLICO

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No tempo dos postos de saúde das Caixas de Previdência, de Salazar e Caetano, não havia falta de médicos. As consultas apenas demoravam dois minutos!…
Embora seja importante libertar os médicos dos centros de saúde das tarefas administrativas, o que é certo é que, com esta habilidade de cariz cronométrico, o Tribunal de Contas está a contornar o problema principal: a evidente falta de médicos de família, que a atual política do Ministério da Saúde deliberadamente promove, e que está a comprometer a funcionalidade do Serviço Nacional de Saúde.

quinta-feira, 7 de Agosto de 2014

Professora foi forçada a dar aulas em estado terminal. Filha recebe indemnização de 20 mil euros


O caso chocou o país inteiro, incluindo o então primeiro-ministro José Sócrates. A padecer de uma leucemia aguda, Manuela Estanqueiro, uma professora de 63 anos, viu a Caixa Geral de Aposentações negar-lhe a reforma duas vezes. A instituição só emendou a mão escassos dias antes de a docente morrer, em 2007, depois de a ter forçado a dar aulas em grande sofrimento.
No mês passado, o Supremo Tribunal Administrativo condenou definitivamente a Caixa Geral de Aposentações (CGA) a entregar 20 mil euros à filha de Manuela Estanqueiro, uma indemnização a que a instituição tentou furtar-se usando todos os meios legais ao seu alcance – tendo inclusivamente invocado a sua situação financeira deficitária. Este, como outros argumentos, não comoveram, porém, os juízes, para quem a situação que atravessa o país não pode servir de pretexto para esvaziar o direito à compensação financeira pela situação a que Manuela Estanqueiro foi sujeita. Contactada pelo PÚBLICO, a CGA remeteu esclarecimentos sobre este caso para o Ministério das Finanças, que não os prestou.
Com mais de 30 anos de serviço, a professora de Cacia, Aveiro, já tinha sido submetida a quimioterapia quando foi presente a uma junta médica. Os clínicos que a observaram acharam-na permanentemente incapaz de voltar a trabalhar, mas o médico que os chefiava – e que nunca viu a doente – decidiu contrariar o seu parecer, recusando a aposentação. Para isso, baseou-se num relatório dos Hospitais da Universidade de Coimbra anterior à ida de Manuela Estanqueiro à junta médica. Dizia o documento que a leucemia se encontrava “em remissão”. Mas acrescentava também que a docente havia “chegado ao limite das suas capacidades para lidar com crianças” e com problemas relacionados com elas. Para não perder o salário e correr o risco de ser despedida por faltas injustificadas, a professora de Educação Tecnológica voltou à Escola Básica 2/3 de Cacia. Era a filha, na altura com uma gravidez de risco, quem tinha de a levar e ir buscar. Os colegas improvisaram-lhe uma cama com os sofás da sala dos professores, de modo a poder descansar entre as aulas, que nem sempre conseguia dar. Mesmo furando os regulamentos, houve docentes que a substituíram na sala de aula. “Regularmente tinha de ser alimentada pela filha ou pelos colegas quando se encontrava a leccionar, pois não conseguia fazê-lo sozinha”, descrevem duas sentenças de tribunal. Havia dias em que o prato ia para trás como tinha vindo.
O calvário durou um mês, ao longo do qual Manuela Estanqueiro voltou a precisar de cuidados hospitalares. Foi nesta altura que o caso saltou para os jornais e para as televisões, juntamente com outro, de contornos similares, de um docente de Braga com cancro na laringe que mal conseguia falar mas a quem também havia sido recusada a passagem à reforma. Sócrates declarou-se chocado, ao ponto de decretar uma auditoria às juntas médicas da CGA. Foi também por causa de Manuela Estanqueiro que as juntas médicas passaram, a partir daí, a ser compostas exclusivamente por clínicos.
Pela voz do hoje ministro da Segurança Social, Pedro Mota Soares, o grupo parlamentar do CDS exigiu explicações para tão “atroz desumanidade”. Foi na sequência do escândalo público – e já depois de ter negado a aposentação à professora por duas vezes – que a CGA lhe concedeu finalmente a reforma, numa altura em que estava outra vez internada no Hospital de Aveiro para não mais sair.
A juíza que analisou o caso no Tribunal Central Administrativo Norte – para o qual recorreu a CGA depois de condenada em primeira instância – não hesitou em classificar o sucedido como um desrespeito pela dignidade humana. “O período de tempo durante o qual se viu obrigada a trabalhar foi extremamente penoso e quase indigno da condição humana e de professora”, escreveu na sentença. “Como se não lhe bastasse a doença”, acrescenta a magistrada, chamando a atenção para o inútil sofrimento acrescido que a atitude negligente da CGA provocou. Por isso, não acedeu ao pedido do Ministério Público para baixar a indemnização para cinco mil euros. “A minha mãe vivia na angústia desta injustiça que lhe estavam a fazer”, recorda a filha, também professora, que pediu em tribunal uma indemnização de 300 mil euros. O advogado do Sindicato de Professores da Zona Centro que a representou em tribunal admite recorrer da decisão da justiça portuguesa para instâncias europeias, como o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos.

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Nem os talibãs do Afeganistão revelam tanta insensibilidade e tanto desprezo pela dignidade das pessoas e pela vida humana.
Neste caso, a Justiça funcionou contra o despotismo dos burocratas, embora os vinte mil euros de indemnização não apaguem a monstruosidade da afronta. O Estado foi condenado, mas  0 médico-chefe da Junta Médica e os dirigentes da CGA, diretamente envolvidos no caso - que foram os verdadeiros autores materiais da hedionda decisão de não reconhecerem a incapacidade total para o trabalho da professora Manuela Estanqueiro, que se viu obrigada a dar aulas, quando já se encontrava gravemente doente, a atravessar a fase terminal de uma leucemia aguda - ficaram na sombra, incólumes. Pelo menos, deveríamos conhecer a sua identidade, para que, se os encontrássemos na rua, podermos cuspir-lhe na cara.

Esta é a fórmula matemática da felicidade

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A partir do estudo das respostas neurológicas associadas à satisfação, um grupo de cientistas da Universidade de Cambridge apurou uma fórmula matemática que define a felicidade.
estudo, intitulado “Um modelo neuronal e computacional para um momento subjetivo de felicidade” tratou de perceber o que se passa no cérebro durante um momento de alegria. Para isso desenvolveu um jogo que envolveu ganhos monetários de curto prazo, o que implicou gerir expectativas e desejos de modo a perceber os impulsos cerebrais envolvidos na sensação de felicidade descrita pelos participantes — que era medida numa escala de um a dez. O estudo envolveu um rácio de esquecimento, determinando que quanto mais distante no tempo era o momento de felicidade, menos relevante ele se tornava para o sentimento presente. Outra conclusão interessante é a relação da felicidade com as expectativas. Dito de outra forma: se a recompensa for inesperada, a sensação de felicidade é bem maior.
Este trabalho científico envolveu 26 pessoas que se sujeitaram a um scan cerebral enquanto jogavam no computador. Os resultados de base foram depois usados para prever intervalos para padrões de felicidade de 18.420 sujeitos que participaram num jogo no smartphone, demonstrando a utilidade dos valores originais apurados. Estudos mais avançados poderão contribuir para determinar valores mais rigorosos que apurem a felicidade de uma pessoa sem ter de recorrer a testes subjetivos como os que são usados hoje por psicólogos.
Se esta parece uma questão mais filosófica que matemática, é porque é. E é o próprio estudo de Cambrigde que começa por referir o “a felicidade tem uma importância central no bem estar subjetivo do ser humano”, algo que tem sido estudado há milénios por filósofos — “de Aristóteles a Bentham”. Claro que  encontrar o estado emocional puro de felicidade individual é utópico porque isso depende de cada pessoa e das suas circunstâncias, pelo que a única possibilidade de efetuar uma medida seria pela felicidade subjetiva dos povos — que as Nações Unidas já medem através do Relatório Mundial da Felicidade — ou pelo transitório estado emocional de satisfação. A metodologia foi a que permitiu atingir resultados mensuráveis, embora seja criticável por associar satisfação a somas monetárias em jogos.
Já no ano passado um outro estudo da Universidade de Missouri tentou apurar a relação entre a busca da felicidade e a música. Sendo que aqui é mais fácil associar comportamentos a épocas ou até gerações — o que facilita a criação de uma banda sonora da felicidade. Deixamos três sucessos musicais que muitos associam a felicidade:
No final dos anos sessenta, os Turtles lançaram um hit chamado “Happy Together” que resumiu o espírito da geração.

Agradecimento


Agradeço ao Apolineo Gouveia a amabilidade de ter aderido ao Alpendre da Lua.

terça-feira, 5 de Agosto de 2014

Garantias de que contribuintes estão 'livres do BES' são "falsas", afirma Megan Greene

Este ativo não é tóxico. Foi transferido para o Novo Banco.

A economista e colunista Megan Greene, que se tem debruçado nos últimos anos sobre a crise das dívidas nos países sul-europeus, considera que serão “falsas” quaisquer afirmações que sugeriam que os contribuintes não serão prejudicados pelo resgate ao BES.
Para Megan Greene, economista-chefe da consultora Maverick e cronista da Bloomberg, os contribuintes nacionais não irão escapar às consequências do resgate ao Banco Espírito Santo.
Recorde-se que o banco privado será dividido em ‘banco mau’ e em ‘banco bom’, estimando-se que virá a necessitar de quase cinco mil milhões de euros para se capitalizar. Este domingo à noite, governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, anunciou a solução para o BES, com o Governo, através de um comunicado do Ministério das Finanças, a afirmar que os contribuintes não terão de suportar quaisquer custos.
E é sobre esta questão que surgem as dúvidas de Megan Greene. Num comentário de que o The Guardian dá conta, publicado na rede social Twitter, Megan Greene considera que o resgate ao BES é “assustadoramente”  parecido com os resgates à banca irlandesa, “embora numa escala muito menor”. A economista acrescenta que serão “falsos” quaisquer comentários que sugiram que os contribuintes estão ‘livres’ da situação.
Na sua conta no Twitter, a cronista da Bloomberg dá também destaque a um artigo da autoria de Claire Jones, artigo esse que tem como título ‘Como roubar um país, ao estilo do Espírito Santo’ ('How to rip off a country, Espirito Santo style', lê-se no título original). Claire Jones já tinha escrito para a revista Forbes sobre a crise no banco privado.

***«»***
A descoberta de todas operações subterrâneas e opacas de Ricardo Salgado ainda não se esgotou. O próprio Governador do Banco de Portugal (BdP), na sua comunicação de domingo à noite, referiu a enorme complexidade dos muitos esquemas contabilísticos fraudulentos, utilizados pelo BES, e da impossibilidade de penetrar nos circuitos de territórios "com outras jurisdições". Por isso, é muito possível que o buraco financeiro do BES tenha uma amplitude muito maior do que aquela que foi revelada publicamente. Também não é de afastar a hipótese de que o primeiro-ministro, a ministra da Finanças, o governador do BdP e a autoridade financeira europeia já tenham conhecimento de toda a extensão da enorme fraude, e que só por uma questão de oportunidade política tenham decidido revelar a verdade, apenas quando se apresentar um momento mais favorável, que possa ser devidamente preparado e encenado. Com esta fórmula engenhosa, os portugueses seriam previamente preparados para receberem a notícia de mais uma inevitabilidade da crise, o que justificaria o anúncio do recurso   a um novo endividamento externo e a mais medidas de austeridade.
Neste momento, e considerando o historial deste governo, ao nível da manipulação da opinião pública, em que se conseguem construir narrativas  benignas para poder justificar e desenvolver políticas malignas, é aconselhável não acreditar nos seus dirigentes nem nos seus lacaios. 
Uma coisa, no entanto, é certa. Se o buraco financeiro do BES tiver o tamanho do Evereste, poderemos vir a dizer que Ricardo Salgado, o banqueiro do regime, foi também o seu coveiro.

segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

Mais um esbulho?!...


“O Estado vai recapitalizar o Novo Banco, através de um empréstimo de cerca de cinco mil milhões de euros, concedido ao recém-criado Fundo de Resolução, empréstimo este que, ao contrário do que afirmou o Governador do Banco de Portugal, é dinheiro dos contribuintes, uma vez que são estes que irão pagar as amortizações e os juros do empréstimo da troika, destinado para este fim, no valor de 12 mil milhões de euros.
No entanto, ainda nenhum responsável informou a opinião pública sobre o valor da taxa de juro que o Fundo de Resolução irá pagar ao Estado”.

Este foi o meu comentário, que deixei no Diário Económico digital, mas que apenas ficou visível durante um minuto, período ao fim do qual apareceu a informação de que o comentário tinha sido bloqueado.
Parece-me que estamos a regressar ao tempo da censura, não já a censura executada pelo governo, tal como acontecia nos tempos de Salazar e Marcelo Caetano, mas a censura dos agentes do grande capital financeiro, de que o Diário Económico é uma expressão.

Ontem, depois de ter lido o comunicado do Governador do Banco de Portugal, enviei uma mensagem para o endereço eletrónico da infobes, um site disponibilizado pelo novo BES para Perguntas e Respostas sobre a nova situação criada, em que solicitava a informação sobre o valor da taxa de juro do empréstimo do Estado ao Fundo de Resolução. Até ao momento, ainda não recebi nenhuma resposta.

Temo que a taxa de juro, a aplicar pelo Estado a este empréstimo ao sistema financeiro, seja irrisória. Se ela for inferior à praticada pelas três instituições da troika sobre os empréstimos concedidos a Portugal, ao abrigo do plano de assistência económica e financeira, os portugueses têm mais uma razão para considerarem-se traídos, enganados e esbulhados.

domingo, 3 de Agosto de 2014

Notas do meu rodapé: O alibi dos túneis e mais um avanço na escalada da “Guerra Quente”


O argumento da existência de túneis na fronteira entre a Faixa de Gaza e Israel, que serviriam para o Hamas infiltrar no território inimigo os seus guerrilheiros e o armamento para o lançamento dos temíveis rockets, não pode ser aceite como justificação plausível para a brutal carnificina que o exército israelita está desnecessariamente a provocar entre a população palestiniana, o que prefigura a ocorrência continuada de um crime de guerra, já que o governo judaico sabe de antemão que os seus soldados estão a matar indiscriminadamente civis desarmados, incluindo mulheres e crianças, e não os combatentes daquele movimento islamista. O argumento é pueril e idiota, e, de tanto ter sido invocado nos media, sem a devida aferição crítica, para provar que a existência daqueles túneis constituíam uma verdadeira e grave ameaça para Israel, acabou por se tornar credível para o distraído cidadão comum. Se um túnel tem uma entrada, também tem uma saída, e, neste caso, a saída estará localizada no lado do território israelita. Bastaria ao exército de Israel identificar essas saídas, através do patrulhamento minucioso da fronteira comum, e, em cada uma delas, deixar patrulhas permanentes e rotativas, para, e tal como os caçadores fazem aos coelhos alapados, apanhar os militantes do Hamas. Essas saídas não podem estar dissimuladas, já que não é possível, no frenesim de uma ação clandestina, apagar as marcas da perfuração do subsolo, nem esconder os vestígios das grandes movimentações de terras, efetuadas para o efeito. Com esta solução, o governo judaico evitaria o milhar de mortes que esta guerra já provocou.
Mas o objetivo de Israel não é proceder à destruição dos túneis, destruição esta que acessoriamente acabará por ocorrer. O seu objetivo a médio e a longo prazo consiste em proceder à ocupação efetiva da Faixa de Gaza, depois de neutralizar o Hamas, e aí começar a construir colonatos judaicos, tal como aconteceu na Cisjordânia, o que viola claramente o Direito Internacional, que os governos de Israel, de uma forma contumaz, não têm cumprido, na parte que lhes interessa.
Com o acordo envergonhado dos países ocidentais, o governo israelita vai criar mais um ponto de tensão, a juntar ao já existente na problemática Ucrânia, a fim de alimentar a emergente Guerra Quente, que está a suceder à extinta Guerra Fria, do século passado, e que se caracteriza pela luta surda e intestina, herdade dos tempos coloniais, entre o bloco dos países ocidentais, liderados pelos EUA, e aqueles países e povos do sul e do leste, que pretendem garantir a sua identidade e obter a sua soberania plena, como é o caso do povo palestiniano e dos povos russófilos da atual Ucrânia. É que a guerra é uma “redundância” violenta da política, da ideologia, da diplomacia e dos grandes interesses económicos. E bastará riscar um fósforo para acender uma fogueira, que poderá transformar-se rapidamente num gigantesco incêndio, se a ganância de alguns ou a imprevidência de outros teimosamente persistir.

sábado, 2 de Agosto de 2014

EUA aprovam ajuda de 167,5 milhões de euros a Israel



Congresso norte-americano aprovou sexta-feira um pacote de 225 milhões de dólares (167,5 milhões de euros) para reposição dos mísseis do escudo de defesa de Israel, a última medida depois do fracassado cessar-fogo entre Telavive e o Hamas.
A Câmara dos Representantes votou a proposta com 395 votos a favor e oito contra, dando assim luz verde ao Pentágono para ajudar o aliado israelita.
O voto a favor do Senado foi posterior à aprovação no Senado.
O escudo antimíssil "cúpula de ferro" de Israel tem anulado dezenas de morteiros disparados pelos palestinianos nas mais de três semanas de conflitos entre ambas as partes.
O projeto terá agora de ser assinado pelo Presidente Barack Obama.

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Quando o secretário de Estado norte-americano, John Kerry (juntamente com o secretário -geral da ONU, Ban Ki-moon) aparece a querer mediar o conflito entre o Hamas e Israel, ele não está a ser sincero, porque os EUA são também parte do problema do que vergonhoso se passa na Palestina, e não a sua solução. Sem a ajuda comprometida dos sucessivos governos dos EUA, instigada e apoiada pelo grande lobie financeiro judaico, que domina a grande finança mundial, Israel não poderia sobreviver como Estado, por não ser sustentável economicamente e militarmente. E nenhum presidente dos EUA ousa desobedecer aos desejos ambiciosos do movimento sionista, que pretende restaurar o bíblico Grande Israel de há três mil anos, ignorando a História e rejeitando os direitos dos povos que na Palestina sempre viveram, e que foram islamizados (sem terem perseguido os judeus) pelo império otomano. 
Esta generosa ajuda de última hora evidencia a grande cumplicidade dos EUA para com a agressão sionista desencadeada contra os palestinianos.

Primeira Guerra Mundial

Foi há 100 anos!... Depois, não houve nenhuma década em que não tivesse ocorrido no mundo um conflito armado. Nos dias de hoje, as nuvens negras da barbárie parecem querer anunciar novas tempestades. Os sinais são alarmantes. Percebe-se que estamos no fim de uma era e que uma outra já nasceu. E, normalmente, essa mudança dos grandes contextos históricos arrasta consigo o aparecimento  de guerras e revoluções. O mundo pode transformar-se num matadouro!...

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Primera Guerra Mundial a Color - Cap.1- La Catastrofe
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 La Primera Guerra Mundial a Color- Cap. 2 - Matanza en las Trincheras
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La Primera Guerra Mundial a Color- Cap. 3 - La Sangre en el Aire
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La Primera Guerra Mundial a Color- Cap 4 - Asesinos en el Mar
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La Primera Guerra Mundial a Color- Cap 5 - Caos en el Frente Oriental
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La Primera Guerra Mundial en Color [6/6]- Victoria y Desesperación
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sexta-feira, 1 de Agosto de 2014

Los orígenes de la Primera Guerra Mundial #Documental



Foi há 100 anos!... Depois, não houve nenhuma década em que não tivesse ocorrido no mundo um conflito armado. Nos dias de hoje, as nuvens negras da barbárie parecem querer anunciar novas tempestades. Os sinais são alarmantes. Percebe-se que estamos no fim de uma era e que uma outra já nasceu. E, normalmente, essa mudança dos grandes contextos históricos arrasta consigo o aparecimento  de guerras e revoluções. O mundo pode transformar-se num matadouro!...

terça-feira, 15 de Julho de 2014

Associação de Paços de Ferreira convida dono da Ikea para conhecer "móveis a sério"


A Associação Empresarial de Paços de Ferreira enviou hoje uma carta ao dono da multinacional Ikea a convidá-lo para conhecer "móveis a sério" que vão estar expostos no certam Capital do Móvel de agosto.
"Móveis a sério são os móveis verdadeiros, com madeira e maciços, que são diferentes dos móveis que eles têm", afirmou, acrescentando: "Os móveis da Ikea são várias tábuas juntas que fazem o mobiliário. Nós temos móveis feitos à medida, fazemos as montagens e levamos ao cliente".
O convite a Ingvar Kamprad, dono da multinacional sueca, prevê que todos os custos da eventual deslocação a Portugal (viagem e alojamento) sejam suportados pela associação.

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A bronca que não seria se a IKEA fosse uma multinacional de produção de tomates!... Não sei se em Paços de Ferreira haveria tomates que chegassem...

Notas do meu rodapé: A falácia da argumentação dos neoliberais


O ESTADO NÃO É MEU PAI... OU É?

O princípio de Stuart Mill (J. Stuart Mill, A Liberdade, 1859) à luz do qual o Estado apenas deve interferir na liberdade de ação dos cidadãos quando o exercício dessa liberdade prejudica os demais: "A liberdade de um indivíduo deve assim ser limitada: não deve ser prejudicial aos outros" embora permaneça actual e invocável é passível de ser interpretado no contexto das obrigações do Estado do secúlo XXI. Com efeito, se quem decide fazer de forma impensada uma tatuagem se prejudica a si mesmo e apenas a si, o mesmo já não vale para quem consome de forma desregrada produtos com alto teor de sal - os tais sujeitos à dita "fat tax" - para quem fuma ou para quem não faz exercício físico. No limite, pode perguntar-se: é legítimo que aqueles que levam uma vida regrada paguem os custos acrescidos do Serviço Nacional de Saúde impostos por aqueles que não o fazem? Ou, pelo contrário, será essa uma das muitas contingências da vida em sociedade?
FRANCISCA ALMEIDA

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O que se esconde por detrás de todos estes argumentos da autora, é o grande objetivo do imperialismo e do capitalismo financeiro internacional em pretender formatar as sociedades, a nível global, pela grelha neoliberal e conservadora, remetendo o Estado para a mera gestão das funções de soberania e entregando à iniciativa privada a gestão de todas as atividades económicas, sociais e culturais, que assim ficariam sujeitas à sagrada lei da oferta e da procura e ao princípio do utilizador/pagador. Em vez de sociedades minimamente solidárias, criar-se-iam sociedades ferozmente competitivas, onde prevaleceria a lei do mais forte. Cada cidadão ficaria entregue ao seu mérito e à sua sorte. Se nascesse incapaz, a culpa seria dos pais, que deveriam ter feito um teste genético (pago do seu bolso, naturalmente) antes de pensarem ter um filho. Se o cidadão contraísse uma cirrose, porque era alcoólico, ou contraísse um cancro no pulmão, porque era fumador, não teriam de ser os outros cidadãos a pagar os respetivos tratamentos. Mas, se aquele cidadão contraísse o cancro pulmonar, devido aos gases tóxicos emitidos pelas chaminés de uma fábrica de produtos químicos, ninguém iria lembrar-se de exigir uma indemnização aos proprietários daquela fábrica, assim como ninguém iria lembrar-se de exigir responsabilidades pela existência de uma criança anormal, ao produtor daquele preservativo que se rompera, durante uma relação sexual do casal progenitor, que, anteriormente, tinha sido  aconselhado a não procriar, depois de se ter submetido a um exame genético. 
Por mero interesse do lucro dos grandes grupos económicos e financeiros, os doutrinários fundamentalistas do neoliberalismo pretendem diluir a responsabilidade coletiva de uma sociedade e aprofundar até ao limite a responsabilidade individual de cada cidadão. Apliquemos esta visão corrosiva e distorcida a uma equipa de futebol, com os avançados da equipa derrotada a reclamarem o prémio do jogo, porque, tendo marcado dois golos, consideraram que a culpa da derrota teria sido dos defesas e do guarda-redes, que permitiram a concretização de três golos pela equipa adversária.
Os ardilosos argumentos da "fat tax", que pretendem incutir um falso princípio de uma nova justiça social, baseado no paradigma fundamentalista de que, em todos os domínios estruturantes da esfera social, cada um tem o que merece e que cada um tem de pagar o que usa e possui, não resistem ao confronto com os princípios humanistas que as sociedades desenvolveram ao longo da História, embora, como se sabe, as classes possidentes sempre os tivessem tentado torpedear. E faço a simples pergunta: Como é que uma sociedade organizada no modelo neoliberal resolvia o problema de uma criança talentosa, que, revelando elevado mérito nos primeiros anos de escolaridade, não poderia, entretanto, prosseguir os estudos por insuficiência de meios financeiros de seus pais? O Estado dava a essa criança um cheque-ensino, diria o inefável Paulo Portas, julgando ele que estava a salvar a honra do convento. E eu responderia: mas, por que carga de água, vivendo eu numa sociedade do Estado mínimo e do lucro máximo, tenho de pagar dos meus impostos a formação daquela criança talentosa? Por uns instantes, Paulo Portas julgaria ter demonstrado a superioridade moral do Estado neoliberal, de natureza individualista, sobre o Estado Social, de natureza coletivista, que eu defendo, por considerar ser mais equitativo e mais justo, ao disponibilizar serviços de âmbito social (Educação, Saúde e Segurança Social) a todos os cidadãos, em plena igualdade de condições. E aqui, já não discuto a justeza do pagamento dos meus impostos, para esse fim...

Publicado no Notícias de Ourém, 24 de Julho de 2014
Publicado no blogue "CDU- Por Ourém", 28 de julho de 2014