sexta-feira, 22 de setembro de 2017

SINDICATO DOS MÉDICOS DA ZONA SUL _ COMUNICADO


SINDICATO DOS MÉDICOS DA ZONA SUL


A situação da Ortopedia do Centro Hospitalar Lisboa Central é preocupante e exige uma urgente intervenção!!!


Por razões de segurança para os cidadãos e de qualidade na prestação dos cuidados médicos na especialidade de ortopedia, a Ordem dos Médicos, entidade pública a quem estão atribuídas competências legais nestas matérias, tomou a deliberação em 8/7/2016 de definir os requisitos elementares quanto à constituição das equipas de urgência desta especialidade médica.
Nesse sentido, deliberou que as equipas deveriam ter escalados em cada 24 horas 4 médicos ortopedistas.
Ora, o que está a acontecer, desde há vários meses, nesta unidade hospitalar que dispõe da sua urgência no Hospital de S. José, é que são escalados 2 ou 3 médicos para o mesmo período de 24 horas.
Na maioria das vezes a situação existente é as referidas escalas serem constituídas por um especialista e por um médico em fase de formação dos primeiros anos do internato médico.
Têm sido feitas diversas diligências junto da administração deste centro hospitalar, algumas por escrito, e nunca foi sequer obtida qualquer resposta.
A situação é de tal modo grave, que se der entrada um doente politraumatizado que necessite de uma intervenção cirúrgica o atendimento na urgência por parte desta especialidade tem de ser imediatamente suspenso.
Há cerca de 4 anos foi tomada a decisão de encerrar um serviço de ortopedia, conhecido por S. Lázaro, que dispunha de mais de 70 camas e que tinha um volume de intervenções cirúrgicas superior a 2000 mensais.
Havendo uma manifesta incapacidade de resposta deste hospital, o expediente que tem sido adoptado é a transferência de múltiplos doentes para o Hospital Curry Cabral.
Estamos perante uma situação de claro risco no tratamento dos doentes do foro ortopédico/traumatológico que impõe medidas imediatas de resolução.
Estamos perante um claro desrespeito pelas medidas elementares de segurança definidas pela Ordem dos Médicos que exigem uma inequívoca responsabilização.
O Sindicato dos Médicos da Zona Sul (FNAM) alerta para esta grave situação e irá solicitar respostas imediatas ao Ministério da Saúde, transmitindo desde já o seu empenhamento para acções concretas que imponham o cumprimento da legalidade no funcionamento desta especialidade médica no contexto do serviço de urgência no Hospital de S. José.

Lisboa,20.09.2017             

A Direção do Sindicato dos Médicos da Zona Sul (FNAM)                                             

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Recordando a Manifestação de 15 de Setembro de 2012, frente à Assembleia da República


Esta manifestação ocorreu apenas há cinco anos. Parece que já foi há muito tempo. Mas não foi. Parece também que os motivos que a mobilizaram já foram ultrapassados. Mas não foram. O que aconteceu é que o sistema, entretanto, teve tempo de branquear a situação com uns pozinhos de fantasia e de demagogia. Mas as fantasias não pagam dívidas. Continuam por resolver os problemas estruturais da economia, sendo o principal a moeda única, uma moeda desajustada, em relação à produtividade, e que está a prejudicar o desenvolvimento económico do país. Mais tarde ou mais cedo esse problema vai estoirar-nos nas mãos, o que vai obrigar a um novo tipo de austeridade. E, a partir do próximo ano, será Bruxelas a partir e a dividir o queijo, pois a comissão europeia já ganhou o poder de rectificar e aprovar o Orçamento de cada país membro do euro.
E será fácil de adivinhar que novas e duras exigências irão ser impostas a Portugal, o que irá desencadear um grande descontentamento popular e a ocorrência de novas manifestações. Por isso, não podemos deitar para o caixote do lixo as bandeiras. Vão ser precisas.  

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Curiosidades sobre o Aqueduto das Aguas Livres (*)


Curiosidades sobre o Aqueduto das Aguas Livres

Geometria Divina, símbolos misteriosos, lendas, homicídios em série. Obras de engenharia notáveis e conflitos memoráveis entre os maiores arquitetos do século XVIII. O Aqueduto das Águas Livres - em todos os seus 58 quilómetros de troços,
de Belas às Amoreiras - é um monumento "ao melhor e ao pior" dos homens.

O troço mais conhecido, sobre o vale de Alcântara, tem o maior arco em ogiva de pedra do mundo!
Caminhamos sobre o vale de Alcântara, num dia de calor tórrido, mas a sombra do gigante de pedra protege-nos. A marcha é lenta porque, a cada passo, a nossa "guia" tem uma história para contar. O Bairro da Serafina homenageia "uma estalajadeira, com talento para a cozinha", que alimentou sucessivas gerações de mestres e operários da obra do aqueduto. A ogiva central "é a maior do mundo - estamos no Guiness Book por causa disso - mas conta a lenda que é fechada unicamente por três pedras, que só um som pode apartar".

Margarida Ruas não sabe que som é esse. Provavelmente será das poucas questões sobre o Aqueduto das Águas Livres para as quais não tem resposta. E se a tivesse guardaria o segredo até ao fim dos seus dias. Especialista em comunicação política, criadora do extinto Contra Informação, da RTP, foi durante muitos anos diretora do Museu da Água, da EPAL. E deve-se a ela o facto de os lisboetas poderem voltar a percorrer aquele caminho público, outrora maldito, devido à memória de um assassino cruel…

Em 1996, quando a empresa a nomeou diretora de comunicação, com o pelouro do museu, o único espaço visitável em todo o complexo das Águas Livres era a Estação Elevatória dos Barbadinhos. Numa semana, abriu ao público um novo museu polinuclear, integrando a passagem de Alcântara, a Mãe de Água das Amoreiras e o Reservatório da Patriarcal, no Príncipe Real.

Já não tem responsabilidades diretas no museu. Mas continua a defender o monumento pelo qual um dia se apaixonou "perdidamente". Em 2004, os Guardiães do Aqueduto, um grupo que lidera, conseguiram travar um projeto que previa a demolição de um troço de dois quilómetros, perto de Belas, para dar lugar a um acesso à CRIL e a um shopping. Hoje, é a porta-voz de um movimento internacional que quer fazer daquele monumento - em todos os seus 58 quilómetros de canais - Património da Humanidade reconhecido pela UNESCO. "É obrigação nossa, dos portugueses, deixá-lo para a humanidade, tal como foi deixado por todos aqueles fantásticos mestres e pedreiros, e por todas as vidas que se perderam na construção."

A nascente de Belas, onde tem início o percurso de
58 km de canais do aqueduto, numa imagem
do arquiteto e músico Emanuel Pimenta

O sonho de fazer chegar as "águas livres"a Lisboa - cidade banhada por um rio cuja água é salobra desde Santarém - começou no último quarto do século XVII, ditando a criação do real da água - uma espécie de imposto sobre o valor acrescentado aplicado a produtos como o vinho, a carne e o azeite - para financiar o projeto. Mas só em 1731, com o alvará régio de D. João V, foram criadas as condições.

O projeto foi entregue a um trio de notáveis: o italiano Antonio Canevarique, por essa altura, concluia a construção da Torre da Universidade de Coimbra; o coronel Manuel da Maia que, anos mais tarde, seria decisivo na reconstrução da Baixa lisboeta após o terramoto de 1755; e o alemãoJohann Friedrich Ludwig, ligado a obras como o Convento de Mafra.

Canevari era o mestre entre os mestres. Mas perdeu o estatuto ao fim de um ano. A sua conceção de uma estrutura hidráulica acionada por sifões para bombear a água até Lisboa era demasiado mundana para as aspirações do rei, que governou num dos períodos mais ricos da história de Portugal, graças ao ouro do Brasil. D. João V queria uma obra que perdurasse. E em retrospetiva tinha razão porque, do muito que mandou construir, o aqueduto foi das poucas edificações a escapar ao sismo de 1755.
O mestre português convenceu o rei com o mais monumental sistema de desnível, que viria a vingar, mas revelou-se ineficaz na execução: "Manuel da Maia tinha o problema de querer abrir demasiadas frentes de obra ao mesmo tempo, não conseguindo dar andamento a nenhuma."

Obra foi pensada para fazer refletir o mundo exterior na água, através de janelas.

Obra foi pensada para fazer refletir o mundo exterior na água, através de janelas.
Em 1736 avançou o engenheiro militar Custódio Vieira: "Era uma figura notável e um dos nomes mais importantes da história do aqueduto. Inventou uma estrutura para conseguir transportar os carrilhões [sinos do Convento] de Mafra. E foi graças a essa estrutura que se conseguiram erguer também estas colunas". Como o fez, não se sabe ao certo, porque os planos da maravilha da engenharia viriam a desaparecer, em 1755, entre os escombros do Paço da Ribeira, onde se guardava boa parte dos documentos mais importantes da capital.

Custódio Vieira ainda concluiu o Arco Grande, em 1744, mas morreu nesse mesmo ano, já não assistindo à inauguração do Aqueduto , em 1748. Seriam necessárias várias décadas ainda, até que, às portas do XIX, a obra cumprisse em pleno a missão de abastecer Lisboa, que depois manteve até ao fim da sua "vida funcional", em 1964.
"A história do aqueduto consubstancia o melhor e o pior de nós portugueses", diz Margarida Ruas. "O melhor porque é uma obra notável, feita - tal como afirmavam-, dando o melhor de nós para chegar a Deus, para construir a beleza máxima e a pureza máxima. O pior porque, na realidade, as lutas internas foram tão grandes, entre os mestres, entre os donos da obra, que acabou por ser solucionada passados quase cem anos com a intervenção do patriarcado."

Faz sentido que, a determinada altura, "um padre tenha também sido o coordenador da obra". É que, explica, o aqueduto está entre alguns monumentos do mundo, "tal como as pirâmides de Gizé, no Egito, tal como Notre Dame, em Paris", construídos de acordo com a geometria sagrada: a crença de que a geometria e a matemática estão intimamente ligadas a toda a realidade que nos rodeia. "Na geometria sagrada partimos do caos para a ordem. E para isso foi preciso dividir por números, os chamados números-ideia". O homem é "o agente integrador". E no caso do aqueduto, "único no mundo", essa integração "dá-se através de uma dimensão imaterial. Quando passeamos nas nascentes, com a água de um lado e do outro, as janelas refletem todo o mundo exterior".

Margarida Ruas reabriu o Aqueduto aos lisboetas e é uma das suas “guardiãs”

A dimensão mística desta obra de homens imperfeitos não deixa ninguém indiferente. O luso-brasileiro Emanuel Dimas Pimenta,especialista em arquitetura espacial e membro do comité técnico desta área no Comité Norte-Americano de Astronáutica e Aeronáutica, não se considera "nada esotérico". Mas recentemente publicou o ensaio: O Mistério das Águas Livres - O mágico aqueduto de Lisboa. "O aqueduto foi construído num período em que estavam em voga os universos esotéricos, como o universo Rosacruz. E historicamente ilustra um período do pensamento europeu de que poucas pessoas se dão conta", explica ao DN.

As próprias pedras do monumento remetem-nos para um universo misterioso. Várias têm símbolos que facilmente associamos à maçonaria, a ordem dos pedreiros livres. José Medeiros, historiador e presidente da Academia dos Saberes, esclarece que a maioria deles não eram mais do que "marcas de obra deixadas aos pedreiros pelos canteiros, que trabalhavam a pedra, algumas das quais acabaram por ser incorporadas pela maçonaria especulativa, ganhando significados completamente diferentes". Mas há também "símbolos especiais, de consagração, como o círculo com a cruz no meio e os três planos com a cruz em cima".

"O pancadas", o sociopata que matou dezenas por uma moeda Diogo Alves, mais conhecido pela alcunha de "O Pancadas", ficou para a história como um dos piores sociopatas portugueses. Roubava mulheres no passeio público do Aqueduto, em Alcântara e, "por uma moeda", lançava dezenas de vítimas para a morte.

O processo de Diogo Alves está em exposição na Torre do Tombo

"Era um assassino em série. Era um homem de dupla personalidade. Durante o dia era boieiro e, ao que parece, de um profissionalismo extremo, e à noite transformava-se no pior dos assassinos", conta Margarida Ruas.

O modus operandi do homicida era sempre o mesmo: esperava pela passagem das lavadeiras de Caneças, "que vinham ou buscar ou entregar as roupas aos aristocratas em Lisboa", roubava-as e lançava-as do viaduto abaixo.

Inicialmente, as mortes chegaram a ser atribuídas a uma estranha vaga de suicídios. Mas quando as vítimas começaram a totalizar várias dezenas as autoridades perceberam que estavam a lidar com um homicida em série e o caminho público sobre o aqueduto foi interdito.

Diogo Alves nunca chegou a ser apanhado por estes crimes. Viria a ser detido, sim, pela morte da família de um médico, na Rua das Flores, durante um assalto conduzido por ele e por vários membros do seu gangue. Foi por este último crime que acabou por ser condenado e executado, em 1841. O processo que conduziu à sua condenação está atualmente em exposição na Torre do Tombo, em Lisboa.

Há uma lenda urbana que o identifica como o último condenado à morte em Portugal. Na realidade, esta pena foi abolida mais de uma década depois, em 1852, por D. Maria - mas apenas para crimes políticos - só sendo abolida para crimes civis em 1867, já no reinado de D. Luís. Vários homens foram ainda condenados e executados depois do "Pancadas". Mas o seu lugar na história ficou ainda assim assegurado, pelos piores motivos.

Aliás, por ironia do destino, entre centenas de figuras históricas ligadas ao aqueduto, Diogo Alves é mesmo a única cujo rosto podemos ainda contemplar. A sua cabeça foi decepada após a execução, a fim de ser estudada pela comunidade científica, e continua ainda conservada em formol no teatro Anatómico da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

Galego de nascença, "O Pancadas" - pela gravidade dos seus crimes - acabaria por contribuir para uma animosidade, que durou décadas, contra os imigrantes da Galiza, que não só eram os aguadeiros de Lisboa - antes do aqueduto - como foram os primeiros bombeiros da cidade.

(*) Amabilidade de Lara  Raquel Caldeira Ferraz

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Manifesto: Pela nossa saúde, pelo SNS


Manifesto: Pela nossa saúde, pelo SNS

Porque é um assunto que a todos nos diz respeito, tomo a liberdade de vos contactar para vos convidar a subscrever este Manifesto, que visa influenciar o governo a ter uma política de saúde que tenha também em conta a promoção da saúde e a prevenção da doença. De há muito que o SNS se tem centrado quase exclusivamente na prestação de cuidados na doença. Ora essa estratégia é socialmente insustentável e financeiramente incomportável. Contamos, por isso, com a vossa subscrição e com a divulgação do Manifesto pelos teus contactos. Para subscrever basta declarar que subscreve.

Manifesto
 
Pela nossa saúde, pelo SNS

 A razão de os signatários se dirigirem aos portugueses decorre da análise que fazem da actual situação no sector da saúde, a qual, quase a meio do mandato do governo, permanece sem sinais de mudança que alterem a natureza do modelo de política de saúde, promovendo a saúde dos portugueses, reabilitando e requalificando o Serviço Nacional de Saúde. O qual dificilmente se verificará sem a contribuição activa dos actores sociais e políticos das comunidades.

O sistema público de saúde carece do financiamento ajustado à sua missão: promover a saúde, prevenir e tratar a doença. Sem essa condição não só o SNS vai definhando, vendo reduzido um dos seus principais valores, a cobertura universal, como as respostas que vai dando são canalizadas quase exclusivamente, e já em condições precárias, para o tratamento da doença e para contribuir para o florescimento da prestação privada. Em seis anos (2009-2015) a despesa pública da saúde diminuiu 21%, tendo passado de 6,9% para 5,8% do PIB. Os signatários tomam, por isso, como referência a despesa verificada em 2009, que foi de 9,9% do PIB, um ponto percentual acima do verificado em 2015. Além disso, percentagem do financiamento público dos cuidados de saúde prestados à população é desde 2014 das mais baixas da Europa a 28 (66%).

O diagnóstico que melhor caracteriza a saúde da população é dado pelos seguintes indicadores-chave. (1)  com 70% de esperança de vida saudável (2015), os portugueses tinham o mais baixo valor dos países do sul da Europa – Espanha, França, Itália e Grécia; (2) com 32% de esperança de vida saudável aos 65 anos, os portugueses ficam bastante aquém dos valores daqueles países; (3) no grupo etário 16-64 anos só 58% da população considerava que a sua saúde era boa ou muito boa, quando na Grécia ou em Espanha é superior a 80% (2015); (4) no grupo com mais de 64 anos aquela percepção é de 12%, sendo em Espanha e França superior a 40%; (5) mais de 50% da população tem excesso de peso; (6) em 2016 verificou-se o maior excesso de mortalidade da década, correspondente a 4 632 óbitos.

Nos setenta e sete hospitais da rede pública, cerca de 800 000 utentes aguardam com excesso de espera uma primeira consulta hospitalar, correspondendo a 30% das primeiras consultas realizadas em 2016. Esse excesso varia entre 2 e  >800 dias. Mais de oitocentos mil portugueses não têm médico de família atribuído. Entre 2014 e 2016 verificou-se um aumento de 529 000 urgências.

Esta situação é já bastante preocupante. Continua a insistir-se num modelo de política de saúde exclusivamente orientado para o tratamento da doença e centrado nas tradicionais instituições de saúde. Quando a regra é ser-se saudável e a excepção é estar-se doente, a quase totalidade dos recursos são canalizados para a excepção, embora a promoção e a protecção da saúde sejam as intervenções que mais contribuem para melhorar o bem-estar das pessoas e das comunidades, e a estratégia que torna os sistemas de saúde sustentáveis. Do que se trata, por isso, não é de medidas avulsas que dificilmente se articulam entre si, mas de uma reforma que integre cuidados hospitalares, cuidados continuados, cuidados de saúde primários e intervenções em saúde pública, que inclua os actores formais e informais das comunidades locais e que incorpore o melhor conhecimento científico disponível.

Mas mesmo quando se trata da prestação de cuidados na doença, as limitações ao acesso mantém-se como o maior obstáculo aos serviços de saúde no momento em que são necessários, com as consequências negativas daí decorrentes para a condição dos doentes. Os tempos de espera inadmissíveis são disso a melhor evidência e o crescimento da afluência às urgências o pior sintoma da disfunção que reina no sector.

O excesso de mortalidade, verificado sobretudo entre a população idosa e durante o verão e o inverno, quando se verificam temperaturas mais extremas, exige que os cuidados domiciliários sejam mais frequentes e que tanto as autarquias como os serviços de segurança social façam um acompanhamento de maior proximidade respondendo às necessidades de cuidados de conforto que nestas alturas são particularmente sentidas.

No que se refere ao sector privado exige-se que a sua regulação se faça do lado do cumprimento de critérios de ordenamento das instituições de saúde, que a certificação inclua o preenchimento dos quadros de pessoal com a diferenciação ajustados à sua missão, às valências e ao volume de produção previsto, e que a demonstração dos resultados de gerência sejam obrigatórios e públicos.

As várias greves do pessoal da saúde – médicos, enfermeiros, técnicos de diagnóstico e outros trabalhadores -, em que se verificou tanto uma grande adesão desses profissionais como uma considerável compreensão por parte da população, representam sinais que devem ser entendidos e interpretados como manifestações críticas da situação que se está a viver no sector.

Os signatários deste Manifesto têm uma longa história de serviço público no Serviço Nacional de Saúde e de dedicação à causa da saúde. A maior parte deles contribuiu para que ele se implantasse nos primeiros anos da sua criação, foram seus profissionais empenhados desde então e bateram-se por diversas vezes contra os ataques que lhe foram movidos. Não estão, por isso, dispostos a assistir ao seu progressivo definhamento. Se, como é defendido, o SNS representa um dos mais relevantes serviços que a democracia tem prestado aos portugueses, então há que proceder à sua reabilitação e requalificação, alterando substancialmente o sentido da política de saúde. Passados 38 anos da sua criação, o SNS não pode ficar imóvel e alheio aos desafios que lhe são colocados. Nesta exigência estamos acompanhados pelos mais prestigiados peritos na matéria, como Ilona Kickbusch, David Gleicher e Hans Kluge da OMS, e Nigel Crisp, coordenador da Plataforma Gulbenkian Health in Portugal.

Por isso nos dirigimos também a todas as organizações partidárias que subscreveram os acordos de 10 de Novembro de 2015, na expectativa de que sejam sensíveis a esta necessidade inadiável e tomem as decisões que a situação descrita exige. Esta política de saúde já mostrou que não está a responder ao que é exigido de um governo que se afirma empenhado em dar uma orientação de esquerda às suas políticas sociais. Está, por isso, nas mãos da actual maioria parlamentar iniciarem o processo de mudança da política de saúde.

 Primeiros subscritores:
Aguinaldo Cabral, António Manuel Faria-Vaz, Armando Brito de Sá, Cipriano Justo, Deolinda Barata, Fernando Gomes, Guadalupe Simões, Jaime Correia de Sousa, Jaime Mendes, João Proença, Jorge Espírito Santo, José Aranda da Silva, José Carlos Martins, José Frade, José Manuel Boavida, Maria Augusta Sousa, Maria João Andrade, Maria Manuel Deveza, Mariana Neto, Mário Carreira, Mário Jorge Neves, Nídia Zózimo, Paulo Fidalgo, Sérgio Esperança, Sofia Crisóstomo, Teresa Gago.

***«»***

Como não possui o texto original deste Manifesto, o leitor, que pretenda subscrevê-lo, poderá proceder de duas maneiras:

1º - Através do blogue, a mais fácil e a mais directa: Isole esta publicação, clicando no título, e, através de copy, envie o respectivo link, por email, depois de escrever a palavra “Subscrevo”, para o seguinte endereço electrónico: Cipriano Justo justo.cipriano@gmail.com.
2º - O menos imediato: Envie uma mensagem para o endereço, anteriormente assinalado, e solicite o envio do texto do Manifesto, que reencaminhará para o remetente, depois de escrever “Subscrevo”.

Lembre-se que ao subscrever este Manifesto está a defender a sua Saúde. Todos nós, mais tarde ou mais cedo, vamos precisar de recorrer, sem preocupações financeiras e com a garantia de qualidade dos serviços prestados, a uma unidade do SNS, seja qualquer for a natureza e a gravidade da respectiva patologia.
Por outro lado, ao subscrever este manifesto, está a exercer o seu direito de cidadania, defendendo a existência de um SNS, universal e tendencialmente gratuito, e que se revelou, juntamente com a Liberdade e a Democracia, a maior conquista do 25 de Abril.
Não seja “trouxa”, e adira já à subscrição deste Manifesto. Antes que seja tarde.
Informo-o também que todos os primeiros subscritores deste Manifesto são médicos que rejeitam a perversa ideia de que a Saúde tem de ser um negócio.
Alexandre de Castro  

Ver também aqui.
2017 07 28

sábado, 22 de julho de 2017

A Origem das Religiões (*)


A Origem das Religiões (*)

Estamos na presença de um texto rigoroso, que procura tentar compreender a complexa relação entre o Homem e a Religião. E o autor define, logo no início, o campo da sua visão, com o qual concordo, quando diz que "a religiosidade, como geralmente a entendemos, vivida por espíritos conservadores, é uma limitadora das possibilidades humanas". Mas, além das vivências actuais, baseadas nas Religiões do Livro, que, no Ocidente, aprofundaram, desde a sua origem, essa capacidade limitadora da mente dos crentes, o que possibilitou a sua avançada forma de institucionalização, temos de encontrar, através da Antropologia, a razão primeira dessa enraizada pré-disposição do Homem para se sujeitar acriticamente a uma tal situação de subjugação.
Dou como garantido que a crença numa entidade superior começou com os primeiros grunhidos da Humanidade. Ou seja, associou-se naturalmente ao desenvolvimento dos mais primitivos pensamentos dos Homo sapiens, pensamentos ainda lineares e esquemáticos, e das primeiras tentativas de articular sons guturais, com os quais pretendiam comunicar. E nesses primeiros pensamentos,  embora muito concentrados à volta das questões da sua subsistência, surgiu naturalmente a primeira pergunta sobre a sua própria identidade e a identidade de quem construíra o mundo visível a seus olhos, processo esse que durou milhares de anos, o tempo suficiente para projectarem a mente para o Além, para uma entidade invisível superior. Nascera a crença... Mais uns milhares de anos, mais à frente, quando a organização social evoluiu para as formas superiores da sua hierarquização, aceitando um líder que se impunha pelo seu poder, é que se inicia o processo da institucionalização da crença. O próprio poder político necessitava, para se legitimar, do novo poder que surgia, o poder religioso, normalmente concentrado no líder, que rapidamente sentiu a necessidade de ser acolitado por clérigos obedientes.
E assim chegamos ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islamismo, a marcarem o tempo da História, e constituindo-se em objecto e pretexto de muitas guerras.
Alexandre de Castro

terça-feira, 4 de julho de 2017

De Pedrógão Grande à Feira de Carcavelos. As televisões vendem tudo e tudo é contrafeito. _ Carlos Matos Gomes

Vómito televisivo


De Pedrógão Grande à Feira de Carcavelos. As televisões vendem tudo e tudo é contrafeito.

Carlos Matos Gomes

Conclusões do que aconteceu em Pedrógão: Depois das reportagens de Fátima, das reportagens da celebração do campeonato de futebol, as televisões comprovaram que o populismo existe e está tão encarniçado como as labaredas do grande fogo que mataram e devastaram. O populismo é o apelo à excitação e à irracionalidade. Depois do que as televisões, principalmente as televisões que são o grande meio de manipulação de massas, fizeram a propósito de um fenómeno religioso, da excitação de um fenómeno desportivo, as televisões exibiram as suas melhores figuras, desorbitadas, de pregadores das igrejas dos últimos dias no aproveitamento de uma tragédia. As televisões provaram que não faltam atiçadores de populaça para qualquer campanha. As labaredas de Pedrógão mataram pessoas e destruíram bens materiais, mas mataram queimaram a ideia de uma televisão como meio credível de informação e esclarecimento. A televisão, enquanto meio de comunicação, sai queimada de Pedrógão. A televisão portuguesa despiu-se de pruridos e apresentou-se como é: Um Big Brother, uma Casa de Segredos. As vedetas das televisões são clones da Teresa Guilherme.

O populismo é uma evidência quando o mais poderoso meio de manipulação do comportamento de massas utiliza as suas figuras mais conhecidas para fazerem apelo aos sentimentos mais primários e irracionais e estas o assumem com a convicção de pastores da igreja dos santos do últimos dias, da Maná, das testemunha de Jeová.

Os acontecimentos de Pedrógão provaram que o melhor das televisões, principalmente das televisões, são Teresas Guilherme pregando sobre as labaredas de Pedrógão como se fossem as do inferno, despejando discursos sem pudor, ora excitados ora choramingas, sempre vazios. Gente capaz de tudo. Todos os acontecimentos são um espectáculo, de um cadáver ao desespero de alguém que perdeu tudo. O grito dos populistas é sempre: queremos carne, queremos sangue. Em Roma gritariam por um cristão para atirar aos leões, em Lisboa ou em Madrid pediriam judeus para queimar nas fogueiras da inquisição. Em Pedrógão queriam um ministro, um secretário de Estado, um GNR que tenha dado uma indicação errada, um avião que não caiiu! Nos intervalos puxam à lágrima fácil.

Um populista com um microfone e uma câmara perora diante de homens e viaturas que se movimentam e correm, anuncia: há uma completa descoordenação no combate ao fogo. Há duzentos anos, numa obra clássica, «A Guerra», o autor, Clausewitz, escrevia sobre a natureza da batalha: “a reunião perfeita de todas as forças num mesmo momento é contrária à natureza da guerra.” A batalha, o combate, seja contra outros homens, seja contra um fogo,não é um bailado, nem uma tabuleiro onde se movimentam soldadinhos de chumbo em movimentos geométricos. O campo de batalha é caótico, mas ninguém conseguirá que um populista de câmara e microfone entenda isto. Eles estão diante das câmaras para acusar os homens e a natureza. Querem vender mortos e pendurar vivos no pelourinho. Querem demissão de ministros, querem apanhar a contradição entre um secretário e um sub-secretário.

Mas o chocante, é que são estes pastores populistas — e não houve vedeta da televisão que não quisesse aparecer em Pedrógão (faltou o Rodrigues dos Santos de jaqueta) — esta gente sem moral que nos entra casa adentro para nos interpretar o mundo. Um amador de economia surge de guia nativo. Uma assombração em fato de treino fala com mortos, um outro soube de um avião que não caiu… Todos sabem de pinheiros e eucaliptos, de ordenamento do território… Amanhã estarão a explicar-nos as causas do défice, as mudanças do clima no planeta, os interesses que se jogam no Médio Oriente, a estratégia das três grandes potências para a divisão do mundo.

Serão os pastores evangélicos que vimos de microfone a aproveitarem sem vergonha a desgraça alheia e os seus sentimentos de impotência, ou de raiva, ou de desespero que se despiram diante de nós. A reflexão mais elaborada sobre os assuntos que determinam a nossa vida, o máximo de senso, de honestidade, de saber da vida e do mundo que estas figuras patétitas conseguem é a que apresentaram em Fátima, no 13 de maio, na rotunda do Marquês no dito tetra e agora em Pedrógão. É esta gente que nos interpretará o Brexit, a crise dos refugiados, a nova Europa, o programa espacial da China, as vagas migratórias, a guerra da Siria, as opções do novo governo francês, o desemprego estrutural, as opções para o futuro da segurança social, os novos combustíveis, o terrorismo. Serão estes evangelistas dos últimos dias que entrevistarão ministros e cientistas, que analisarão orçamentos e os fenómenos sociais que determinam o nosso presente e o nosso futuro!

Como respondeu uma vendedora na feira de Carcavelos quando um senhor ali caído por acaso lhe perguntou se os polos eram mesmo da Lacoste: Aqui é tudo de marca!

O incêndio de Pedrógão provou que as televisões são uma feira de Carcavelos. Tudo ali é contrafeito e rasca, mas amanhã, os que ali se exibiram como vendedores de Lacostes surgirão graves e sérios como se fossem fabricantes de produtos originais.
**
Um texto escrito por um escritor e capitão de Abril e enviado por outro escritor, também capitão de Abril, o meu amigo e antigo colega de liceu, o Diamantino Silva.
E aproveito a ocasião, da presença, aqui, destes dois militares, cuja honestidade intelectual e integridade moral muito admiro, para dizer o seguinte:
Os capitães de Abril traziam nos olhos a pureza genuína da política, que os políticos de regime depressa conspurcaram.
Alexandre de Castro
2017 07 03

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A propósito de uma Petição A Favor da Redução do Número de Deputados na Assembleia da República de 230 para 180


A propósito de uma Petição A Favor da Redução do Número de Deputados na Assembleia da República de 230 para 180

Desculpem-me todos os peticionários, apesar de todas as razões que possam invocar, mas eu penso que esta iniciativa é um perfeito faits divers, totalmente inócuo e vazio, no ponto de vista político. Fosse este um problema do país, que se resolveria facilmente. O desenvolvimento de um país não depende da dimensão numérica dos deputados do seu parlamento. Há países, mais desenvolvidos do que Portugal, que têm um maior número de deputados. As imagens da televisão apenas nos mostram um parlamento, em que a maioria de deputados parece que está a fazer figura de corpo presente. Mas não é assim. Há muito trabalho de gabinete a fazer. Cada deputado, de cada bancada, tem tarefas distribuídas, para cada sector da actividade do governo, e que vai desde compilação de legislação, pesquisa de elementos estatísticas para sustentar projectos partidários de decretos-lei, até ao estudo das propostas dos outros grupos parlamentares. etc.
Não queiram matar um dos pilares importantes da democracia.
Alexandre de Castro
2016 06 28

segunda-feira, 26 de junho de 2017

FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS - COMUNICADO


FEDERAÇÃO NACIONAL DOS MÉDICOS - COMUNICADO

O crescimento acelerado do número de médicos indiferenciados é um atentado às Carreiras Médicas e ao SNS !!!

Foi concluído há cerca de uma semana mais um concurso de acesso ao Internato Médico destinado à formação de novos médicos especialistas.

Nos concursos realizados em 2015, 2016 e 2017 foram criados 781 médicos sem acesso à formação em qualquer especialidade médica, criando-se um universo já volumoso de médicos designados como indiferenciados.

Consideramos que esta situação não é fruto do acaso e revela uma clara opção política ministerial que visa facilitar a contratação das empresas de cedência de mão-de-obra com profissionais médicos indiferenciados.

Por outro lado, a criação de um numeroso grupo de médicos indiferenciados tem repercussões muito preocupantes na qualidade da prestação de cuidados de saúde nos seus vários níveis, que devem suscitar profundas apreensões à generalidade dos cidadãos.

Consideramos que é urgente estancar o aumento deste número de médicos e exigir a abertura de concursos para a última categoria da Carreira Médica (assistente graduado sénior) cujos objectivos visam colmatar as saídas de médicos desta categoria nos últimos anos e repor as capacidades e idoneidades formativas dos serviços de saúde.

Há mais de 1 ano que nas negociações sindicais temos vindo a insistir tenazmente para que o Ministério da Saúde proceda à implementação urgente destes concursos da Carreira Médica para regularizar uma situação que é cada vez mais grave na qualidade de funcionamento dos serviços de saúde e da prestação dos cuidados aos cidadãos.

O Ministério da Saúde tem adiado sucessivamente qualquer medida nesta delicada área, muitas vezes argumentando com a ausência de autorizações prévias do Ministério das Finanças.

Com este frágil posicionamento político, torna-se cada vez mais evidente que o Ministério da Saúde aceita o papel de subsecretaria de estado do Ministério das Finanças e não denota qualquer preocupação pelo afundamento dramático da qualidade assistencial dos serviços públicos de saúde.

A FNAM denuncia, mais uma vez, esta grave situação e exige ao Ministério da Saúde que adopte medidas imediatas visando a sua solução.

Nas negociações em curso com as organizações sindicais médicas, veremos qual a efectiva vontade política do Ministério da Saúde face a esta e às outras situações graves em discussão.

Mais do que palavras de ocasião que se repetem há cerca de 1 ano, o ministro tem de apresentar soluções. O que temos vindo a assistir é a mera retórica.

A FNAM defende o desenvolvimento de um plano de emergência, com a finalidade de garantir que todos os médicos têm acesso à especialidade e de que o país não desperdiça o valor já criado e o investimento já realizados, do qual fazem parte as seguintes medidas:

Criar novas vagas para as especialidades mais carenciadas, onde se inclui a MGF e a Saúde Pública;

Valorizar os médicos com função de orientador de formação através de suplemento remuneratório;

Dar prioridade às regiões mais carenciadas investindo na criação de condições estruturais e de equipamentos indispensáveis à garantia de idoneidade de formação;
Dar seguimento, com carácter emergente, aos concursos de graduação das carreiras médicas, alargando a base da idoneidade formativa;

Disponibilizar de imediato as vagas ocupadas por médicos reformados aos novos especialistas.

A longo prazo é também fundamental avaliar a problemática da formação pré-graduada e pós-graduada e do acesso à especialidade de forma independente e idónea, onde se inclui, entre outras:

A avaliação e o planeamento das necessidades de médicos especialistas no Serviço Nacional de Saúde;

A avaliação da capacidade formativa no Serviço Nacional de Saúde em todas as áreas de especialidade;

A avaliação e o planeamento do número de médicos licenciados em universidades fora do país.

Coimbra, 25 de Junho de 2017

O Conselho Nacional da FNAM
2017 06 26

domingo, 25 de junho de 2017

Ode às vítimas dos incêndios…


Ode às vítimas dos incêndios…

Guardarei um punhado daquela terra queimada
num lugar sagrado da minha memória dorida
onde se ouvem os gritos incendiados pelo fogo
e os ecos do estertor da morte.
E as cinzas das árvores e das vidas perdidas
naquele incêndio que não tinha fim
ficarão para sempre sepultadas
no coração do meu jardim...

Alexandre de Castro

Junho de 2017

Nota: o meu contributo para a página do movimento “um activismo por dia”.
2017 06 25

sexta-feira, 23 de junho de 2017

A culpa já vem de longe…


A culpa já vem de longe…

Em relação a estes trágicos incêndios, que enlutaram o país, pode ter havido, pontualmente, culpados institucionais e singulares, por negligência, desleixo, descuido ou incompetência. Mas a grande culpa tem de ser encontrada a montante. E essa grande culpa é política e tem de ser encontrada em todos os governos anteriores, que menosprezaram a defesa da floresta e que tomaram opções erradas (e algumas a levantarem muitas suspeitas de favorecimento pessoal), em relação à prevenção e ao combate dos incêndios florestais e em relação à elaboração de um plano nacional, integrado e coerente, da gestão da floresta.
Pior do que a anarquia do ordenamento das florestas, só a tragédia endémica dos seus incêndios. E é por aqui que o problema tem de ser equacionado. Caso contrário, tudo se vai repetir, ciclicamente, todos os anos, com mais ou menos tragédias.
Alexandre de Castro
2017 06 22

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Já não posso... Poema de Sónia M


Já não posso...

Já não posso esconder-me no escuro
como quando era menina.
Envolveu-me a cor que me deste,
no dia em que nossos poemas se fundiram.
Agora, mesmo de olhos fechados
trago esse azul profundo, agarrado à retina.
E nem as palavras que sussurrava ao vento,
já caem desamparadas no vazio.
Sei que as ouves quando as corriges
e me obrigas a reescrevê-las,
fazendo-as, tanto tuas como minhas.
Foram muitos, tantos...
os nomes que me ensinaste!
Com eles derrubei algumas pedras deste muro
Fascinada pela grandeza que me inventaste.
Não! Já nada será como dantes.
Porque agora a minha noite...não é mais escura.

(Terá sempre o brilho azul da tua luz)

Sónia M.

**
Nota: O intimismo é a principal linha de força da poesia de Sónia M. Um intimismo emotivamente doloroso e triste, que percorre os trilhos da saudade, dos amores impossíveis e de toda uma galeria de partidas e chegadas, sempre marcadas por um dramatismo intenso e comovente. E o poema, onde melhor se enlaçam a saudade e a tristeza, é o que se intitula "Despedidas", que a "poeta" escreveu em "Notas do meu diário".
Neste poema, "Já não posso", escrito em 2012, em que a "poeta" se socorre de um diálogo com um hipotético interlocutor, que lhe apontou a luz do caminho e a grandeza do talento, a melodia triste não a abandona, embora das palavras se solte um grito contido de afirmação e de redenção, "Porque agora a minha noite...não é mais escura".
Já nada será como dantes, principalmente aquele fulgor do primeiro instante.
2017 06 22

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Arte na praia _ de Milú Cardoso


Um ramo de uma árvore devolvido pelo mar à sua origem, para ser captado, de forma magistral, pela objectiva certeira da Milú Cardoso, de quem, aqui, já publiquei três fotografias de elevada qualidade técnica e artística. Aqui, em a "Arte na praia", vale o sentido de oportunidade e, a confundir o observador, o efeito do enquadramento da imagem, que leva a pensar tratar-se de uma obra de escultura.
Alexandre de Castro
2017 06 21

domingo, 18 de junho de 2017

O fogo do nosso descontentamento e da nossa revolta



O fogo do nosso descontentamento e da nossa revolta…

Ainda estou sob o efeito do espanto sentido e da dor sofrida. Como é possível acontecer uma tragédia desta dimensão, que deixa o país suspenso na dúvida se Portugal não é já a imagem do inferno, quando todos andaram a apregoar que o nosso destino era o céu? E digo isto, porque esta calamidade, além das causas estratégicas erradas, que estão a ser seguidas, em relação à prevenção e ao combate aos incêndios na floresta portuguesa, também entronca na esfera da acção política de todos os governos anteriores, que consideraram desde sempre o interior rural como as portas do quintal das traseiras do país. Perante o desgaste etário da desertificação humana do interior, que se iniciou na década de sessenta, do século passado, e que prosseguiu até à actualidade, devido à falta de oportunidades para os jovens, os sucessivos governos privilegiaram a cidade e ignoraram o campo, valorizaram o litoral e esqueceram-se do interior. E no interior, perante o esgotamento da agricultura do minifúndio, o mato foi crescendo, constituindo-se num barril de pólvora, que incendeia a floresta todos os anos, no pico do Verão, alarmando as populações indefesas. E as chamas tanto podem ser provocadas por um raio, vindo do céu, como por uma ponta de cigarro mal apagada ou por um fósforo, activado por uma mão criminosa.
O actual governo, ao mesmo tempo que deve dar prioridade à prevenção dos incêndios florestais, que praticamente não existe, e não ignorando, todavia, o reforço dos respectivos meios para o seu combate, deve também desenhar e activar o desenvolvimento económico do interior rural do país, promovendo a fixação dos jovens e invertendo assim o ciclo da desertificação humana.
Alexandre de Castro

Ver também aqui
2017 06 18

domingo, 11 de junho de 2017

Guarda Costeira Europeia: um novo passo no ataque à soberania


A constituição da Guarda Costeira Europeia, mesmo admitindo que aqui e ali serão burilados alguns «bicos» para amenizar as criticas, constituirá um passo que entrará, mais cedo do que tarde, pela plataforma continental portuguesa.
***«»***

Eu já escrevi por aqui que Angela Merkel tem um olho apontado para Zona Exclusiva Económica (ZEE), de Portugal, a mais extensa do mundo e que possui uma riqueza de recursos naturais, que Portugal, por desleixo, incompetência ou inércia, não quer, não pode ou não sabe explorar. Minérios e petróleo jazem esquecidos no fundo do oceano, e, além disto, a importância estratégica, que a ZEE nacional potencialmente possui, é de valorizar. Alguém dizia, há dias, que, se Portugal explorasse a sua ZEE, poderia ser um dos países mais ricos do mundo. Mas os nossos governantes andaram (e ainda andam) deslumbrados com o canto de sereia da Europa Unida, e vão, em Bruxelas, assinando tudo que vai hipotecar a nossa soberania, no futuro próximo, assumindo  aquela "parola" postura de que Portugal tem de ser o melhor aluno da Europa.
Eu lancei aqui um aviso, em relação ao perigo de Portugal perder a soberania sobre a sua ZEE, quando Angela Merkel, há uns meses, afirmou que a gestão dos mares dos países europeus deveria ser centralizada na Comissão Europeia. E os políticos do nosso descontentamento e os comentadores dos jornais e das televisões calaram-se, numa manobra suja de submissão ao que diz a czarina da Europa, Angela Merkel, para quem a UE é o instrumento fundamental para sustentar o poderio económico e político da Alemanha.
A criação de uma Guarda Costeira Europeia é o primeiro passo na estratégia de retirar a Portugal a gestão sobre o seu mar.
A tentação federalista está a caminho, por etapas cautelosas, para não levantar alarmes. Mas o saque vai continuar.
Alexandre de Castro

2017 06 11